Publicado em 5 de junho de 2024 às 15:16
BRASÍLIA - Em sessão tumultuada, o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados ignorou falhas e aprovou nesta quarta-feira (5) parecer de Guilherme Boulos (PSOL-SP), arquivando a representação contra André Janones (Avante-MG) por suspeita da prática de "rachadinha".>
Foram 12 votos a favor e 5 contra o relatório de Boulos, que defendia o arquivamento do caso.>
Tanto Boulos quanto Janones são aliados do presidente Lula (PT). O primeiro é seu candidato à Prefeitura de São Paulo. O segundo integrou a linha de frente de sua campanha eleitoral digital em 2022.>
A sessão foi marcada pela presença em massa de parlamentares bolsonaristas, que discursaram em sequência contra Janones e Boulos, sempre fazendo referência à pré-candidatura do segundo em São Paulo.>
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Estava presente na sessão, por exemplo, o coach Pablo Marçal (PRTB), que também se lançou pré-candidato à prefeitura paulistana. Ele não é deputado, mas foi autorizado a participar da sessão pelo presidente do Conselho de Ética, Leur Lomanto (União Brasil-BA)>
Marçal e Boulos chegaram a bater boca durante a sessão após o deputado do PSOL afirmar que a tropa bolsonarista levou para a sessão até um "coach picareta" e que ele poderia vender sua candidatura ao prefeito Ricardo Nunes (MDB).>
Nikolas Ferreira (PL-MG) se sentou logo atrás de Janones e fez um longo discurso cara a cara com o deputado do Avante, que é seu adversário. "Ele [Janones] é o maior divulgador de mentiras do Brasil e eu sou uma das vítimas. Ele divulgou um ator pornô gay que disse que era eu durante a campanha", disse.>
O PL é o mesmo partido de Jair Bolsonaro, cujo sobrenome está vinculado a diversos escândalos de "rachadinha".>
Boulos discursou repetindo não ter analisado o mérito do caso e que se a Justiça entender que Janones cometeu rachadinha, ele tem que ser punido.>
Janones reafirmou na sessão não ter cometido "rachadinha".>
As suspeitas contra Janones vieram a público após o site Metrópoles revelar áudio de 2019 em que ele, em seu primeiro mandato como deputado, informou a assessores que eles teriam que devolver parte dos salários para ajudar a recompor seu patrimônio dilapidado na fracassada eleição de 2016.>
Em seu voto, Boulos deturpou uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) e usou como prova afirmação do próprio Janones para sugerir o arquivamento do processo contra o colega.>
Segundo o deputado do PSOL, o deputado do Avante não era parlamentar no dia em que foi gravado, portanto não se pode falar em quebra de decoro parlamentar.>
Ao contrário do que diz Boulos em seu voto, o STF não disse que as suspeitas de rachadinha se referem a 2016, mas sim a 2019, já no exercício do mandato. A íntegra do áudio da reunião em que Janones foi gravado também indica que ele já havia tomado posse.>
No áudio, ele reclama com assessores que vários colegas já haviam apresentado projetos de lei e ele não – só um deputado pode apresentar projeto – e que estaria também desamparado sobre como proceder na sessão plenária que ocorreria naquela tarde.>
A tese apresentada por Boulos para tentar livrar Janones também contraria o que ele próprio e o PSOL adotaram em pedidos de cassação que protocolaram contra adversários – contra Chiquinho Brazão (sem partido-RJ), acusado de mandar matar Marielle Franco (PSOL-RJ); Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que foi investigado por suspeita de "rachadinha"; e quatro deputados do PL que teriam estimulado as depredações de 8 de janeiro.>
Em todos esses casos, os crimes dos quais eles são ou eram acusados dizem respeito a período anterior ao exercício do mandato no Congresso Nacional.>
Janones nega que tenha promovido "rachadinha", afirmando que pediu contribuições a amigos, que se tornariam seus assessores, para quitar dívidas que ele e esses auxiliares assumiram em conjunto nas eleições de 2016.>
Disse ainda que não considera sua atitude ilícita e que, de qualquer forma, a devolução de parte dos salários dos assessores acabou não ocorrendo por orientação jurídica que recebeu.>
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