Publicado em 27 de novembro de 2022 às 14:22
Empregando a tecnologia das vacinas mais eficazes contra a Covid-19 desenvolvidas até agora, cientistas nos Estados Unidos criaram uma imunização polivalente contra a gripe. Ela abrange todos os principais subtipos de vírus da doença --algo que nenhuma vacina disponível atualmente é capaz de fazer.>
A abordagem, por enquanto, foi testada apenas em animais de laboratório e ainda há um longo caminho antes que ela possa ser aprovada para uso em seres humanos. Mesmo assim, os resultados, que acabam de sair no periódico especializado Science, sugerem que é possível contornar uma das grandes limitações das atuais vacinas contra a gripe. O grande problema dos métodos mais usados hoje é justamente a necessidade de "apostar" em um número pequeno de subtipos da doença na hora de criar a imunização, sem saber se eles serão mesmo os mais relevantes no risco que trazem para a população.>
Coordenado por Claudia Arevalo e Scott Hensley, da Universidade da Pensilvânia, o trabalho tem como base as vacinas de mRNA (RNA mensageiro), molécula "prima" do DNA que também é empregada em boa parte das imunizações contra a Covid-19 que foram aplicadas no Brasil.>
Nessa abordagem, os especialistas montam uma molécula de mRNA que contém a receita para a produção de uma das proteínas que compõem o vírus da doença. Ao chegar ao organismo do paciente, esse trecho de mRNA passa a ser "lido" pelas células, que se põem a produzir as proteínas virais.>
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Com isso, o sistema imune (de defesa) do organismo reconhece que está diante de substâncias estranhas e aprende, entre outras coisas, a produzir anticorpos, moléculas capazes de atacar tais substâncias. Assim, quando o vírus real entra em contato com a pessoa vacinada, o sistema imune já dispõe de um arsenal específico contra o inimigo, o que impede a infecção ou minimiza muito seus efeitos.>
A mesma lógica se aplica às vacinas mais antigas de gripe, amplamente usadas hoje. A diferença é que, nelas, o ingrediente que ajuda a "treinar" o sistema imune não é o mRNA, mas o próprio vírus da doença, cultivado em ovos de galinha e inativado com detergente. A questão é que, com essa abordagem, as vacinas incluem na sua formulação vírus inativados de, no máximo, quatro cepas (variedades) dos causadores da gripe.>
Entretanto, existe uma grande variedade de cepas da gripe, que fazem parte de nada menos que 20 linhagens diferentes dos chamados vírus influenza A e B, os mais importantes a afetar seres humanos. Em tese, uma vacina universal contra gripe poderia tentar identificar elementos comuns entre todos esses vírus para criar uma formulação que impedisse a ação de qualquer um deles. Na prática, porém, ninguém ainda conseguiu descobrir como fazer isso.>
A equipe da Universidade da Pensilvânia, em seu estudo na Science, decidiu adotar uma abordagem que outros pesquisadores classificam como "força bruta": usar moléculas de mRNA de representantes de todas as 20 linhagens de influenza A e B de uma vez só. Para isso, eles escolheram os mRNAs que correspondem à "receita" da hemaglutinina, proteína da superfície dos vírus da gripe que eles usam para se ligar à membrana das células humanas. Ou seja, trata-se de um bom alvo se a ideia é impedir os passos iniciais da infecção.>
Testes de laboratório com camundongos e furões (animais muito usados em estudos sobre doenças respiratórias) mostraram que a abordagem pode funcionar. Os animais conseguiram produzir bons níveis de anticorpos contra os vírus de todas as 20 linhagens e não ficaram doentes quando foram diretamente inoculados com cepas da gripe. O efeito protetor se estendeu também a cepas cujo material genético não tinha sido incluído na formulação da vacina, embora nesses casos os animais tenham tido sintomas leves da doença.>
Alyson Kelvin e Darryl Falzarano, pesquisadores da Universidade de Saskatchewan (Canadá) que comentaram o estudo a pedido da Science, afirmam que a vacina polivalente de mRNA poderia trazer resultados superiores aos das atuais imunizações contra a gripe porque parece ser capaz até de bloquear totalmente a infecção nos pulmões, conforme indicam os dados em furões.>
Segundo eles, uma possível preocupação a ser analisada é o fato de que uma vacina desse tipo envolveria o uso de material genético de vírus que não estão circulando entre seres humanos no momento. De um lado, isso poderia impedir o surgimento de novas pandemias de gripe, mas também teria potencial para direcionar a evolução de novas cepas da doença.>
"Mas esse cenário parece improvável, porque a vacina multivalente, nesse estudo, está associada à prevenção da infecção e da replicação dos vírus. Esses resultados sugerem que, muito provavelmente, essa vacina diminuiria o potencial de aparecimento de novas cepas virais", escrevem eles. De qualquer modo, novos estudos são necessários para entender melhor o potencial e as limitações da abordagem, diz a dupla.>
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