Publicado em 22 de junho de 2022 às 13:55
Aliados do presidente Jair Bolsonaro (PL) avaliam que a prisão do ex-ministro Milton Ribeiro (Educação) coroa o pior momento da campanha do mandatário.>
Já apreensivos com a alta do preço dos combustíveis, anunciada na semana passada pela Petrobras, pessoas próximas do presidente dizem que a prisão abala um dos pilares da campanha, que é o discurso anticorrupção, usado para fazer frente ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).>
Como mostrou a coluna Mônica Bergamo, aliados de Bolsonaro dizem que o episódio é um "verdadeiro desastre".>
Um integrante do núcleo duro da campanha bolsonarista diz que "não tem vida fácil" ao comentar a detenção de Ribeiro e de pastores ligados ao governo. Este aliado de Bolsonaro, porém, afirma que as acusações contra o ex-ministro não vão colar no presidente, indicando a estratégia a ser adotada.>
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Ribeiro foi nomeado ministro da Educação em julho de 2020 e deixou o cargo em março deste ano, após ser alvo de investigação por um suposto balcão de negócios no MEC operado por ele e por pastores.>
Em áudio revelado pela Folha de S.Paulo, o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro disse que priorizava pedidos dos amigos de um dos pastores a pedido de Bolsonaro.>
Além de Ribeiro, a Polícia Federal também prendeu pastores suspeitos de operar um balcão de negócios no Ministério da Educação e na liberação de verbas do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação).>
Ao menos um dos pastores, Gilmar Santos, já foi detido. A PF também cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços de Ribeiro, de Gilmar e do pastor Arilton Moura -esses dois últimos são ligados a Bolsonaro e apontados como lobistas que atuavam no MEC.>
Num primeiro momento, aliados de Bolsonaro decidiram adotar tom cauteloso para verificar os desdobramentos da operação da PF.>
A constatação é a de que, se houve prisão, a polícia pode ter provas e elementos contundentes para ter realizado a operação. Qualquer tentativa de defender Ribeiro das acusações, portanto, pode ser um tiro no pé.>
O tom que deve ser adotado para tentar blindar Bolsonaro do episódio é o que o próprio presidente deu: o de tentar se descolar do ex-ministro e dizer que a PF tem autonomia sob sua gestão.>
Bolsonaro disse nesta quarta que "a imprensa vai dizer" que Ribeiro é ligado a ele, mas que é preciso ter "paciência" em relação a isso. "Se tiver algo de errado, ele vai responder. Se tiver. Se for inocente, sem problema; se for culpado, vai pagar.">
"Ele que responda pelos atos dele, eu peço a Deus que não tenha problema nenhum", disse o presidente, em entrevista à rádio Itatiaia de Minas Gerais. "Se a PF prendeu, tem um motivo, e o ex-ministro vai se explicar", completou.>
O mandatário ainda afirmou que "houve denúncia" de que o ex-ministro "teria buscado prefeito, gente dele para negociar, buscar recurso" e que logo o "afastou" do cargo.>
Na realidade, porém, a exoneração, conforme publicado no Diário Oficial, ocorreu "a pedido" de Ribeiro, e não por ordem de Bolsonaro.>
Antes, inclusive, o presidente havia dito que "botaria a mão no fogo" pelo então auxiliar.>
Nesta quarta, como vacina, Bolsonaro já disse que não pode ser responsabilizado pelo caso porque não consegue ter controle sobre todos os ministérios e secretarias do Executivo.>
O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), classifica o episódio como "lamentável".>
"Eu não quero ser leviano de acusar. Não é um episódio que ajuda o governo, mas, ao agir imediatamente, deixar a investigação correr e que a punição ocorra logo, é uma forma diferente de governar com relação ao que a gente via antes", disse o deputado.>
"Antes, dava-se o cargo de ministro ao investigado para se ter imunidade para não ser preso. Há uma diferença monstruosa.">
O pastor Marco Feliciano (PL-SP) fez publicações no Twitter em que afirma ser um "dia muito triste" para Igreja Evangélica de vertente Petencostal.>
"A prisão do PR Gilmar Santos, pelo qual, como pregador da palavra, sempre tive respeito e admiração, nos causa um profundo constrangimento. Nos resta apenas aguardar os desdobramentos", avaliou Feliciano.>
Apesar da tentativa de descolamento, a investigação sobre Ribeiro macula a campanha de Bolsonaro não apenas por atingir um ex-ministro, mas por mirar no FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), órgão controlado pelo centrão, grupo de partidos que dá sustentação a Bolsonaro.>
O FNDE foi entregue aos políticos como forma de o presidente criar uma base de apoio no Congresso para evitar o avanço de pedidos de impeachment.>
No mandado de prisão de Ribeiro, o juiz Renato Borelli, da 15ª Vara Federal em Brasília, lista os crimes investigados e que podem ter sido cometidos pelo ex-ministro. São eles: corrupção passiva, prevaricação, advocacia administrativa e tráfico de influência.>
O magistrado também determinou que o ex-ministro de Bolsonaro seja transferido para a superintendência da PF no Distrito Federal.>
Os dois pastores, Gilmar e Arilton, são peças centrais no escândalo do balcão de negócios do ministério. Como mostrou a Folha, eles negociavam com prefeitos a liberação de recursos federais mesmo sem ter cargo no governo.>
Os recursos são do FNDE, órgão ligado ao MEC controlado por políticos do centrão, bloco político que dá sustentação a Bolsonaro desde que ele se viu ameaçado por uma série de pedidos de impeachment e recorreu a esse apoio em troca de cargos e repasses de verbas federais.>
O fundo concentra os recursos federais destinados a transferências para municípios.>
Prefeitos relataram pedidos de propina, até em ouro.>
Na gravação, o ministro diz ainda que isso atende a uma solicitação do presidente Bolsonaro e menciona pedidos de apoio que seriam supostamente direcionados para construção de igrejas. A atuação dos pastores junto ao MEC foi revelada anteriormente pelo jornal O Estado de S. Paulo.>
Ribeiro deixou o cargo no fim de março, uma semana após a revelação pela Folha de S.Paulo. >
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