Publicado em 31 de outubro de 2021 às 13:51
Em pé, com um drinque em mãos, o paulistano arrisca um passinho de dança na pista de alguma balada. A cena pode rememorar a um período pré-pandêmico distante, mas será permitida a partir desta segunda-feira (1º) em São Paulo - na data, também fica liberada a presença de público em pé em shows e estádios podem ter ocupação completa de torcedores. >
Em meio ao avanço da vacinação e à queda no número de mortes, cenas assim aparecem em boa parte dos Estados. No Rio de Janeiro, as medidas foram ainda mais flexibilizadas, e o uso de máscaras foi liberado ao ar livre. >
Apesar da sensação de liberdade que muitos adquirem ao completarem o esquema vacinal contra a Covid-19, há ainda quem se sinta inseguro para sair na rua e siga com medidas de isolamento social. É o caso da decoradora Marcia Coppola, 62, que vive em São Paulo com a mãe Myrian, 92, e a irmã designer Viviane Coppola, 58. >
Desde março do ano passado, elas não recebem pessoas no apartamento e todos os produtos que entram ali são higienizados. Marcia avalia que a vida enclausurada não é desagradável, mas confessa que os últimos seis meses foram mais estressantes, já que ela teve que equilibrar os cuidados domésticos com o trabalho, pois o trabalho da sua irmã voltou de forma presencial. >
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Ela também precisa visitar obras vez ou outra na semana e já fez algumas viagens a trabalho, mas ainda não se sente segura para ir a restaurantes ou lugares fechados, como shoppings e cinema. >
"Quando saímos, a gente tenta não ficar perto da nossa mãe porque, apesar de ter tomado a terceira dose, a gente não quer que ela pegue [a Covid-19] de jeito nenhum", diz Marcia, que conta que sua mãe só saiu de casa para tomar a vacina. >
Agora, durante o feriado, ela vai tentar passear com a mãe de carro e, se a meteorologia permitir, pretende fazer o que de mais sente falta: ir à piscina do prédio e tomar sol -se o espaço estiver vazio, claro. Mas, ela avalia que apesar das restrições, foi um ano bom. "Para quem precisa trabalhar na rua [em meio à pandemia] é que foi horrível." >
A decoradora prevê que ficará mais tranquila para retomar as atividades presenciais quando receber a terceira dose do imunizante. "Acho que vai dar para relaxar algumas coisinhas e a rotina da casa não vai ficar tão pesada", diz ela, que também quer voltar a abraçar as crianças que vivem em seu prédio. >
Marcia não está sozinha. A redatora publicitária Elen Campos, 44, achava que quando recebesse a segunda dose do imunizante teria coragem para encontrar alguns amigos. As duas doses vieram, mas a coragem ainda não. Agora, o momento é de fazer planos, diz ela. >
Por exemplo, em novembro pretende sair de casa para assistir a "Marighella" nos cinemas, mas tem lugar que ela ainda não cogita frequentar, como restaurantes, já que tem que tirar a máscara. >
Além disso, já faz planos para escapar de São Paulo. O Carnaval de 2022 ela vai passar no Rio de Janeiro. "A pandemia começou com o fim do Carnaval e vai ter que terminar no começo do próximo", diz. E promete um retorno triunfal. "Vou sair lambendo o corrimão", brinca. >
Os números em relação à vacinação acalmam Elen, mas ela afirma que a retomada está sendo bem mais lenta do que para a maioria. "O que as pessoas estavam fazendo há um ano, tô começando a fazer agora, isso de dizer 'vou dar uma arriscadinha'." Ela retornou à academia só em outubro, por exemplo. >
Uma das poucas coisas que ela fez fora de casa, em meio à quarentena, foi dirigir até Belo Horizonte e ficar com a família. Lá conseguiu passar um tempo com o sobrinho de cinco anos que agora enfrenta o retorno às aulas presenciais -o pequeno foi o último da turma a retornar à sala. >
"Foi como se fosse, de novo, o primeiro dia de aula", diz a tia, que relata que o pequeno reclama que as aulas "demoram muito". "É como se fosse um ritual de passagem, ele está reaprendendo a dividir brinquedos e a conviver com crianças, porque antes tinha a atenção de todos os adultos." >
Entre os que já encaram atividades fora de casa está o editor de vídeo Diogo Mendonça, 35. Mas isso não significa que a retomada a lugares antes triviais não tenha sido estranha. >
Depois de um ano e sete meses longe de um shopping, ele teve que trocar uma peça de roupa em meados de outubro. A loja estava lotada e a experiência não foi das melhores. "Quando for repetir a dose, vou procurar horários mais alternativos", registrou no Twitter. >
A ida ao shopping foi a primeira saída sem finalidade essencial. "Foi uma espécie de visão de como era a vida pré-pandemia", reflete ele, que, ao ver algumas pessoas com a máscara mal colocada, se sentiu, de certa forma, inseguro. >
Dias depois do shopping, Mendonça foi ao parque Ibirapuera em um domingo de manhã. Lá conta ter usado outra estratégia: chegou mais cedo para aproveitar o ar livre e, quando começou a encher, decidiu ir embora. >
Ele também relata que frequenta a casa de alguns amigos e, vez ou outra, vai a restaurantes e bares, mas sempre de olho na aglomeração. "Sinto mais medo durante o trajeto porque fico pensando o que pode acontecer, mas, quando você chega, senta, começa a conversar, comer e beber, fica natural." >
Mendonça agora tem dois planos a curto prazo: uma viagem à praia e uma ida ao cinema para aproveitar a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. "A exigência do comprovante da vacina me deixa mais tranquilo", diz. >
A estudante de direito Ketheny Zietlow, 24, que vive em Vila Velha (ES), também voltou a viver os imprevistos da vida presencial. Na última semana, com o preço da gasolina nas alturas, ela trocou a ida de carro e, depois de um ano e meio, voltou a andar de ônibus. >
A retomada foi carregada de aventura. A primeira condução ela perdeu por "um milésimo de segundo". Na segunda, uma passageira passou mal e o ônibus foi direto ao pronto-socorro. Já na terceira, a catraca quebrou, o que atrasou a viagem. No entanto, se acostumar ao retorno, ela reflete, não foi difícil. "É tipo andar de bicicleta, não esquece nunca", ri. >
Durante o período mais restrito da quarentena, ela afirma que, além do medo de pegar a Covid-19 e passar para os pais, tinha receio do que as pessoas iriam pensar se soubessem que ela estava se encontrando com amigos. Mas, agora, ela tem saído com maior frequência. >
Lugares lotados, Zietlow diz evitar, mas se reúne com amigos, vai ao cinema e a alguns bares e restaurantes. "Aos poucos foi normalizando, ninguém suporta isso por muito tempo", conclui.>
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