Publicado em 9 de julho de 2021 às 09:06
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) passou a integrar uma lista de pouco prestígio: a galeria de "predadores da imprensa livre" elaborada pela ONG Repórteres Sem Fronteiras com 37 chefes de Estado. >
O líder brasileiro é um dos 17 novos integrantes da compilação, que traz pela primeira vez duas mulheres, Sheikh Hasina, de Bangladesh, e Carrie Lam, de Hong Kong, e um líder da União Europeia, o húngaro Viktor Orbán. A edição anterior da lista havia sido publicada em 2016. >
Na ficha de Bolsonaro, a organização descreve o que chamou de "método predatório" – insultos, humilhação e ameaças vulgares – , os alvos preferidos – jornalistas mulheres, analistas políticos e a Rede Globo – e a característica do seu discurso oficial – vulgaridades. O presidente tomou posse em 1º de janeiro de 2019, e a entidade afirma que ele é um "predador" desde que assumiu o cargo. >
A ONG traz ainda alguns trechos de falas de Bolsonaro, como quando disse a apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, em 6 janeiro, que a imprensa "não é nem lixo, porque lixo é reciclável". No mesmo dia, também afirmou: "Chefe, o Brasil está quebrado, e eu não consigo fazer nada. Queria mexer na tabela do Imposto de Renda, teve esse vírus, potencializado por essa mídia que nós temos. Essa mídia sem caráter". >
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Outro destaque foi a vez em que o presidente usou palavrões para rebater críticas sobre o gasto de R$ 1,8 bilhão do governo federal em alimentos e bebidas em 2020. "Vai para puta que o pariu. Imprensa de merda essa daí. É para enfiar no rabo de vocês aí, vocês não, vocês da imprensa essa lata de leite condensado", disse Bolsonaro, em 27 de janeiro, em vídeo que circulou nas redes sociais. >
Os ataques a jornalistas e interrupções abruptas de entrevistas devido a perguntas incômodas vêm desde o início do mandato. Mais recentemente, o presidente xingou de idiota uma repórter de uma afiliada do SBT e mandou outra, dessa vez de uma afiliada da TV Globo, calar a boca. >
Ao lado de Bolsonaro, há outros 36 líderes com diferentes táticas, como Daniel Ortega, da Nicarágua. A ONG afirma que ele, na liderança do país desde 2007, tornou-se predatório em novembro de 2016, desde sua eleição para um terceiro mandato consecutivo. O principal método empregado pelo ditador é o sufocamento econômico e a censura judicial, e os alvos, a família Chamorro e a mídia privada. >
Dois integrantes da família, inclusive, estão entre os seis candidatos de oposição detidos no último mês no país. O primeiro foi a jornalista Cristiana Chamorro, em 2 de junho, que agora segue em prisão domiciliar. Seu primo, o economista Juan Sebastián Chamorro, também foi preso. >
Já o discurso é classificado de paranoico e exagerado, com destaque à fala de maio de 2020, direcionada à mídia americana e costarriquenha: "Terrorismo de desinformação, dirigido pelos EUA e tomado pelo valor de face pela mídia de muitos países, especialmente a Costa Rica, é brutal, criminoso e xenófobo." >
Outro latino-americano a figurar na galeria de predadores com características parecidas às de Ortega é o ditador Nicolás Maduro, da Venezuela. Seus métodos listados são a censura e a estrangulação econômica deliberadamente orquestrada, que têm como alvo a mídia privada e o jornal El Nacional --que neste ano teve o prédio confiscado pelo regime e foi condenado a pagar indenização milionária. >
A descrição de seu discurso oficial também não difere muito: difamação paranoica. O destaque mais recente vai para um trecho de uma fala de fevereiro de 2019. "Muito da guerra da mídia à qual a Venezuela está sujeita é desenhada para garantir que ninguém chegue perto da Venezuela, que ninguém venha investir, apesar de a Venezuela ser o melhor país do mundo para investir." >
No rol de ditadores também estão nomes como Aleksandr Lukachenko (Belarus) e Kim Jong-un (Coreia do Norte). Entre as grandes potências mundiais figuram Vladimir Putin (Rússia) e Xi Jinping (China). >
O russo é tido como predador desde que assumiu o cargo em 2000 --de lá para cá, foram quatro mandatos presidenciais, além do período como primeiro-ministro de Dmitri Medvedev. Putin usa o método do nacionalismo autoritário contra seu alvo principal, a mídia independente, e a ONG destaca ao menos oito jornalistas russos que estão detidos atualmente e um que morreu na prisão em 2020 por falta de atendimento médico, Aleksandr Tolmashev. >
O discurso oficial do presidente russo é classificado como "hipocrisia descarada", e a Repórteres Sem Fronteiras lembra uma fala sua durante o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, em junho deste ano. "Temos tantos canais de notícias, de internet, temos tantas opiniões diferentes e há tantas opiniões críticas na mídia, sobre as autoridades (e sobre mim). Eu não acho que os seus países tenham isso, jornalistas que critiquem o governo tão duramente." >
O líder do país asiático, por sua vez, adota como método predatório o que a ONG chamou de "vazio de repressão". "A mídia estatal deve não apenas seguir a liderança do Partido [Comunista Chinês], mas também 'refletir a vontade do partido, resguardar sua autoridade e sua união'", afirma a entidade. "Sob Xi, o assédio a correspondentes internacionais e suas fontes também alcançou novas altas." >
O alvo do dirigente é simples: aqueles que saiam da narrativa. E seu discurso oficial é classificado de doutrinação paternalista, expressada em uma fala de fevereiro de 2016, em referência aos jornalistas da CCTV, da agência Xinhua e do jornal People's Daily, todos veículos estatais. "Eles precisam amar o partido, proteger o partido e se alinhar estreitamente à liderança do partido em pensamento, política e ação.">
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