WASHINGTON - Desde o primeiro dia de volta à Casa Branca, Donald Trump já dava sinais de que a relação com o Brasil não seria marcada por tranquilidade. Em 20 de janeiro de 2025, afirmou que o relacionamento entre os dois países seria positivo, ainda que com uma hierarquia clara: "Deve ser ótima, eles precisam de nós mais do que precisamos deles".
O ano foi marcado por críticas à condução do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pela imposição de tarifas comerciais e pela sanção ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Ao longo desse período, o governo Lula trabalhou para reduzir tensões, e o primeiro sinal de distensão veio durante a Assembleia-Geral da ONU, quando Trump afirmou ter tido uma "química excelente" com o presidente brasileiro.
Desde então, a sanção contra Moraes foi retirada, e parte das tarifas acabou suspensa. Ainda assim, neste ano, embora Trump tenha deixado de fazer críticas diretas a Lula, novas crises ganharam destaque, como a negativa de visto ao diplomata Darren Beattie, a prisão —e posterior soltura em poucos dias— do ex-delegado Alexandre Ramagem (PL-RJ) e a possibilidade de facções como o PCC e o Comando Vermelho serem designadas como organizações terroristas.
Agora, como mostrou a Folha, os presidentes se reúnem em Washington para tratar de temas ligados à segurança e à economia, considerados de interesse mútuo. Do lado brasileiro, há a expectativa de apresentar uma proposta de cooperação em segurança pública, incluindo o combate ao tráfico de armas e à lavagem de dinheiro.
Além disso, estarão na pauta as investigações da Seção 301 abertas pelo governo Trump contra o Brasil, que podem resultar em sanções e tarifas adicionais ao país.
Há, segundo fontes próximas à Casa Branca, a possibilidade de que a reunião ocorra sem a presença de integrantes do Departamento de Estado, tanto por questões de agenda, uma vez que o titular da pasta, Marco Rubio, estará no Vaticano, como para evitar conflitos. Isso porque uma ala mais ideológica do departamento teria atuado para evitar ou limitar o encontro.
Além disso, está prevista a presença do representante do comércio dos EUA, Jamieson Greer, a chefe do gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, o vice-presidente, JD Vance, o secretário do comércio, Howard Lutnick e o secretário do Tesouro, Scott Bessent.
"O timing dessa reunião é misterioso", afirma o brasilianista americano Brian Winter. Em meio a prioridades domésticas nos EUA, queda de popularidade de Trump e crises internacionais como a guerra no Irã, o encontro com Lula não pareceria, à primeira vista, uma prioridade. "Se fosse para resumir em duas palavras o motivo dessa reunião seria terras raras", diz.
Essas matérias-primas, essenciais para setores como defesa, tecnologia e transição energética, tornaram-se prioridade estratégica do governo americano após a China ameaçar, no ano passado, restringir suas exportações. Para Winter, o encontro, porém, segue cercado de incertezas.
O comportamento imprevisível de Trump abre espaço para diferentes cenários — de uma reunião cordial a um embate público, como já ocorreu com outros líderes internacionais, entre eles o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, e o sul-africano Cyril Ramaphosa.
"Acredito que a intenção amanhã é positiva, com uma visão construtiva baseada na importância do Brasil nas terras raras, mas, se eu fosse o presidente Lula, entraria no Salão Oval esperando praticamente tudo", afirma.
Relembre o histórico da relação entre os presidentes
- Tarifas
As tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil foram um dos principais pontos de atrito bilateral. Em julho, foram anunciadas tarifas de 50%. A Casa Branca citou "perseguição política, intimidação, assédio, censura e processos judiciais" contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores, classificando essas ações de "graves abusos de direitos humanos" e um enfraquecimento do Estado de Direito no Brasil. Brasília buscou negociação e diversificação de parceiros comerciais e, ao longo do processo de reaproximação dos presidentes, parte das tarifas acabou sendo suspensa.
- Lei Magnitsky
O ministro Alexandre de Moraes (STF) foi alvo de sanções com base na lei Magnitsky. Na justificativa, o governo dos EUA afirmou que Moraes "utilizou sua posição para autorizar detenções arbitrárias antes do julgamento e suprimir a liberdade de expressão". A sanção foi retirada em dezembro.
- Do Pix ao etanol
Também em julho, o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) anunciou o início da investigação da Seção 301 que tinha o Brasil como alvo. A investigação colocou itens como Pix, pirataria, etanol e Rua 25 de Março como indicativos como uma possível prática desleal do país. A investigação ainda não foi concluída, e o processo costuma durar até um ano. A expectativa é de um cenário desfavorável para o Brasil —o processo pode resultar em novas tarifas para o país.
- Química
Em setembro do ano passado, Lula e Trump tiveram um breve encontro na Assembleia-Geral da ONU. Os dois se abraçaram, e o americano definiu o momento como de "grande química" entre eles. Logo depois, os presidentes se falaram pelo telefone, e, em outubro, encontraram-se na Malásia. Desde o fim do ano passado, Trump não fez mais críticas públicas a Lula.
- Conselho de Paz
Neste ano, Trump criou o chamado Conselho de Paz para a reconstrução da Faixa de Gaza, o que analistas viram como uma tentativa de escantear a ONU. Entre os países convidados, estava o Brasil, que não respondeu ao convite. Trump chegou a falar que previa um grande papel para o país no Conselho. O presidente Lula afirmou que o Brasil poderia aceitar o convite, mas que seria necessária a presença de um palestino na direção do conselho.
- Encontro com líderes latinos
No início do ano, Trump reuniu líderes latinos na Flórida com objetivo declarado de discutir o combate ao crime organizado na região. Além do Brasil, Colômbia e México não foram convidados, mas o republicano pareceu não saber da falta de extensão de convite as nações. Questionado, ele afirmou: "Acho que eles foram [convidados], eu me dou bem com todos eles", disse o americano. A Folha apurou com representantes do Brasil e dos EUA que Lula não foi convidado.
- Visto negado de Darren Beattie
Conselheiro de Trump, Darren Beattie teve o visto negado para entrada no Brasil e adicionou um novo ponto de atrito diplomático. A decisão foi anunciada por Lula, que afirmou que a decisão é uma resposta ao cancelamento do visto do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Na agenda, Beattie tinha como objetivo visitar Jair Bolsonaro na prisão.
- Terrorismo
Um dos pontos mais delicados da agenda bilateral envolve a possibilidade de os Estados Unidos designarem facções criminosas brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho, de organizações terroristas.
A medida abriria caminho para cooperação mais agressiva em segurança, mas também geraria tensões jurídicas e diplomáticas com o governo brasileiro, que historicamente resiste à classificação formal dessas organizações como terroristas. Para isso, o Brasil vai apresentar uma proposta para cooperação em segurança pública, que inclui colaboração no combate ao tráfico de armas e lavagem de dinheiro.
- Alexandre Ramagem
A prisão e posterior soltura do ex-delegado e deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) entrou na pauta da relação entre Brasil e Estados Unidos por sua repercussão política e institucional. Após a soltura e uma pressão de aliados bolsonaristas, Washington anunciou a suspensão da credencial do delegado brasileiro que trabalhava baseado na Flórida em conjunto com o ICE por supostamente contornar pedidos formais de extradição para promover "perseguições políticas" no Brasil.
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