Publicado em 14 de agosto de 2024 às 15:07
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Aliados do presidente Lula (PT) defenderam publicamente e nos bastidores o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), de críticas sobre sua atuação no cargo e descartaram comparações entre a conduta do magistrado e a do ex-juiz Sergio Moro (União Brasil).>
A Folha de S.Paulo revelou nesta terça-feira (13) que o gabinete do magistrado no Supremo ordenou por mensagens e de forma não oficial a produção de relatórios pela Justiça Eleitoral para embasar decisões do próprio ministro contra bolsonaristas no STF.>
Pessoas próximas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) compararam o episódio ao da Vaza Jato, em que foram reveladas mensagens entre procuradores da Lava Jato e o então juiz federal Sérgio Moro. Um ministro de Lula, por sua vez, afirmou tratar-se de um exagero a comparação.>
Para este auxiliar do presidente, é natural que a comunicação entre ministros e assessores incluam diretrizes e não há irregularidades nisso por não se tratar de diferentes partes do processo, ao contrário do que ocorreu na Lava Jato. O aliado de Lula avalia ainda que é ato de má-fé comparar a conduta com a relação que Sérgio Moro teve com procuradores no Paraná e que tentar dar visibilidade à questão é tentar apagar o 8 de janeiro.>
>
Um outro aliado do presidente afirmou que a exigência para a lisura do processo é que as decisões estejam amparadas em provas obtidas licitamente. Na avaliação desse interlocutor de Lula, a coleta de postagens em redes sociais, como foi conduzida, não compromete a licitude da investigação sobre fake news.>
Um terceiro interlocutor do presidente alerta, no entanto, para o risco de uso político do episódio, na tentativa de desqualificar o inquérito das fake news.>
Ao menos três ministros de Lula defenderam Moraes publicamente. O ministro Jorge Messias (Advocacia-Geral da União) afirmou nas redes sociais não ver irregularidades na conduta de Moraes.>
"O ministro Alexandre de Moraes sempre se destacou por seu compromisso com a justiça e a democracia. Do mesmo modo, tem atuado com absoluta integridade no exercício de suas atribuições na Suprema Corte", escreveu Messias.>
"Suas decisões contaram com a fundamentação e regularidade próprias de uma conduta honesta, ética e colaborativa que merece nossa admiração e apoio", continuou o ministro.>
O ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais) endossou o comentário do colega de Esplanada no post no X.>
"Alguns fizeram comparações indevidas com irregularidades cometidas por um certo juiz. Mais uma tentativa frustrada de questionar a devida apuração e punição dos crimes contra a democracia", afirmou Padilha.>
O ministro Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário) disse que as acusações são uma tentativa de desacreditar o STF.>
"A matéria da Folha de S.Paulo que acusa o ministro Alexandre é sensacionalista e não corresponde à verdade. A matéria só tem o efeito de alimentar o movimento de tentar desacreditar o STF para incidir no julgamento do inelegível", disse Teixeira no X, antigo Twitter.>
A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, também defendeu Moraes publicamente e disse que ele atuou "simultaneamente" como presidente do TSE e relator do inquérito das fake news na defesa da democracia.>
"'Fora do rito', de qualquer rito, estavam Bolsonaro e seus cúmplices, mentindo sobre o processo eleitoral, ameaçando as instituições e urdindo um golpe contra a posse de Lula, o eleito. É a esses golpistas que serve a campanha desencadeada pela @folha contra o ministro Alexandre de Moraes e o STF, quando se aproxima o momento em que Bolsonaro terá de enfrentar a Justiça pelos crimes que cometeu", argumentou Gleisi.>
Aliados de Bolsonaro, por sua vez, discordam. Eles dizem que o episódio é ainda mais grave que o da Lava Jato, porque neste caso houve a utilização de um órgão eleitoral para produção de provas criminais. Mas, para eles, o desfecho ainda é incerto, por isso adotaram cautela.>
Pessoas próximas ao ex-presidente ponderam que um juiz de primeira instância provavelmente perderia a relatoria dos inquéritos, mas, como Moraes é do Supremo, é preciso aguardar a repercussão entre os colegas de corte o tema. Bolsonaro optou por permanecer em silêncio e ver como evolui o episódio tanto na opinião pública quanto no Judiciário.>
Enquanto isso, Moraes continua, ao menos até o momento, sendo relator de todos os inquéritos que têm o ex-presidente e seus aliados no alvo.>
O caso poderia, eventualmente, levar à contaminação das provas ou ao questionamento dos inquéritos relatados por Moraes, segundo um interlocutor.>
No Congresso, a reação é um pouco menos cautelosa. A reação coordenada da oposição deve vir nesta quinta (15), após reunião conjunta de integrantes das duas Casas.>
"Para quem ainda duvidava do que temos denunciado há anos, as provas obtidas pela reportagem são claras como a luz do dia: mostram seríssimos abusos de autoridade que jogam no lixo o devido processo legal. (...) Tudo isso, vale salientar, tem como motivação a perseguição político-jurídica contra o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores", disse o líder da oposição na Câmara, Filipe Barros (PL-PR).>
Alguns parlamentares bolsonaristas fizeram coro nas redes sociais contra o magistrado, com base na reportagem, e falam de usar as informações para reforçar o pedido de uma CPI de abuso de autoridade na Câmara.>
No Senado, já havia uma articulação de apresentar um pedido de impeachment contra Moraes, que agora será reforçado com as novas revelações. A ideia é apresentar o documento em coletiva de imprensa, na tarde desta quinta.>
"Já tem vários pontos, um material robusto, várias assinaturas de senadores e de apoiamento de dezenas de deputados federais. E a gente vai lançar a campanha nacional para recolher mais assinaturas e apoiamentos até o dia 7 de setembro. E no dia 9 de setembro a gente protocola na presidência do Senado", disse o senador Eduardo Girão (Novo-CE), autor da proposta.>
"Acredito que essa matéria atraiu mais atenção ainda e pode ajudar muito no aumento dos parlamentares de apoiamento", completou.>
Diálogos aos quais a reportagem teve acesso mostram como o setor de combate à desinformação do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), presidido à época por Moraes, foi usado como um braço investigativo do gabinete do ministro no Supremo.>
As mensagens revelam um fluxo fora do rito envolvendo os dois tribunais, tendo o órgão de combate à desinformação do TSE sido utilizado para investigar e abastecer um inquérito de outro tribunal, o STF, em assuntos relacionados ou não com a eleição daquele ano.>
A Folha teve acesso a mais de 6 gigabytes de mensagens e arquivos trocados via WhatsApp por auxiliares de Moraes, entre eles o seu principal assessor no STF, que ocupa até hoje o posto de juiz instrutor (espécie de auxiliar de Moraes no gabinete), e outros integrantes da sua equipe no TSE e no Supremo.>
Em nota, Moraes afirmou que todos os procedimentos que adotou foram "oficiais e regulares" e estão "devidamente documentados nos inquéritos e investigações em curso no STF, com integral participação da Procuradoria-Geral da República".>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta