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Arlindo Villaschi

Brasil tem que deixar "complexo de vira-latas" para trás

Romper com círculos viciosos construídos a partir de um imaginário social que pouco reconhece as qualidades do país, sua gente e suas coisas, é tarefa complexa

Publicado em 08 de Junho de 2018 às 14:22

Públicado em 

08 jun 2018 às 14:22
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi Arlindo Villaschi
Bandeira do Brasil Crédito: Reprodução | Pixabay

Momentos de grandes fragilidades podem se tornar oportunidades para se tecer novos rumos. Tecer a partir do disponível e com atitude de quem reconhece que é no caminhar que se faz o caminho.

A figura do tecer cabe no Brasil de hoje onde são evidentes os sinais de rompimento da costura social. Rompimento porque são falsos os bordados de igualdade de raças, gêneros e credos; rompimento porque as desigualdades sociais e econômicas são visíveis a olho nu; rompimento porque somos territórios – locais, regionais, nacional – marcados pelo mal cuidar de humanos e deles para com a natureza e o meio ambiente.

Quebrar com o círculo vicioso do “sempre foi assim” é fundamental. Círculo vicioso que forja a percepção do brasileiro desde suas origens enquanto mameluco e que alimenta o sentimento coletivo de “complexo de vira-latas”

Rompimento porque formamos uma sociedade em que a forma e o conteúdo de lidar com o esgarçamento tem privilegiado o confronto de “certezas” que dão corpo a ideologias que muitos preferem esconder. Ideologias que se mantêm através da recusa ao debate baseado em evidências; que perpetuam o status quo com o cômodo “sempre foi assim”.

Quebrar com o círculo vicioso do “sempre foi assim” é fundamental. Círculo vicioso que forja a percepção do brasileiro desde suas origens enquanto mameluco e que alimenta o sentimento coletivo de “complexo de vira-latas”.

“Complexo de vira-latas” que impede o reconhecimento das grandes riquezas do país. Seja a de tudo o que representa sua gente - “O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro”, segundo Câmara Cascudo -, seja a do descaso para com o uso sustentável de sua biodiversidade e de sua pluralidade cultural.

“Complexo de vira-latas” manipulado com intensidade pela mídia e a academia de mercado a serviço de interesses da classe dominante cada vez mais atrelada à financeirização mundializada. Manipulação que resulta em um posicionamento político de descaso para como os interesses nacionais como se eles fossem irrelevantes diante de uma globalização que se busca vender como inexorável.

Romper com círculos viciosos construídos a partir de um imaginário social que pouco reconhece as qualidades do país, sua gente e suas coisas, é tarefa complexa. Complexidade que precisa ser reconhecida para ensejar a busca de novos instrumentos de tecer uma outra ordem social, econômica e política.

Ordem que sabe-se ser impossível de ser construída de cima para baixo. Ordem que precisa ser tecida de baixo para cima. Como tecer? Buscando agulhas que ajudem mãos disponíveis a fazer diferente. Mãos como as de quem escreve e as de quem lê. Colocá-las à disposição pode ser um começo. Mão à obra, fica o convite.

*O autor é professor de Economia

 

Arlindo Villaschi

Arlindo Villaschi Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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