Líder maior da Rede Sustentabilidade no Espírito Santo, o prefeito da Serra, Audifax Barcelos, foi conversar com Marina Silva, eminente fundadora do partido, há cerca de duas semanas. Da reunião também participaram o senador recém-eleito pela Rede-ES, Fabiano Contarato, e os principais dirigentes da agremiação em todo o país. Em pauta, a iminente fusão da Rede com o Partido Popular Socialista (PPS), que tende a ser sacramentada em janeiro.
Da consumação dessa fusão, da qual Audifax é grande defensor, depende não só a permanência do prefeito na Rede, como também a concretização dos seus próximos movimentos no tabuleiro político capixaba. E, pelo que apuramos, os movimentos planejados por Audifax são nada menos que ousados. Passam por ser candidato ao governo do Estado em 2022 ou até, quem sabe, lançar candidatura à Prefeitura de Vitória em 2020.
Na conversa com Marina e os demais dirigentes nacionais, Audifax também abordou os desdobramentos no Espírito Santo da iminente fusão com o PPS. Conforme a coluna apurou, Audifax fez uma espécie de “retrato falado” de outro personagem que adquire extrema relevância nesta reflexão: o prefeito de Vitória, Luciano Rezende (PPS). No diálogo com Marina, Audifax compartilhou com ela impressões sobre o prefeito de Vitória.
Marina pode ser a chefe da tribo nacional da Rede, e Audifax, o cacique do mesmo partido no Estado. Mas a rede que está amarrada na entrada da cabana do cacique do PPS capixaba é outra, e leva gravado o nome de Luciano Rezende. É ele quem se balança nessa rede e quem comanda a aldeia do PPS em solo espírito-santense. E aí entra uma questão de “hierarquia tribal”.
Nas eleições de outubro, a primeira em que vigorou a cláusula de barreira, o PPS nacional conseguiu superar a “nota de corte”. Não obteve lá uma votação estrondosa, mas suficiente para se manter no jogo, com direito a cota do Fundo Partidário e tempo de TV. A Rede não pode dizer o mesmo. Ou seja, para o PPS, a fusão com a Rede é uma questão de fortalecimento, mas não de vida ou morte. Para a Rede, é questão de sobrevivência política.
Assim, em vez de “fusão” das duas siglas, o mais correto seria dizer que o PPS está prestes a “absorver” a Rede. Não se sabe o nome do partido que resultará dessa junção, mas o número continuará sendo 23 (o do PPS). Portanto, a tendência é que os atuais dirigentes do PPS possuam ascendência, a priori, sobre os dirigentes redistas que serão incorporados. É natural. Jogo jogado. Mas na prática, para o que mais nos interessa nesta análise, significa dizer o seguinte: ao entrar na aldeia do PPS-ES, Audifax, antes chefe da outra tribo, terá que ir lá se apresentar ao cacique Luciano não como um igual, mas como mais um guerreiro da nova tribo. Portanto, apenas mais um comandado do chefe Luciano. E esse é o complicador para o prefeito da Serra.
Mesmo defendendo a fusão, Audifax não se anima nem um pouco a dar seus próximos passos políticos sob a tutela de Luciano (com quem não tem a melhor das relações, como aliás não a tem com Renato Casagrande).
Dois caciques, uma tribo
Como vimos, Audifax nutre planos ambiciosos para si mesmo num futuro próximo. E a ideia de deixar que esses planos passem pelas mãos de Luciano não deixam o prefeito da Serra muito confortável. Sem falar que, se Audifax estiver mesmo considerando lançar-se candidato a prefeito de Vitória em 2020 (e ele está), essa ideia esbarra nos planos do próprio Luciano, que não há de abrir mão de fazer seu sucessor – o favorito no momento é o vereador Fabrício Gandini, presidente estadual do PPS e recém-eleito para a Assembleia Legislativa.
Isso pensando na eleição em Vitória – a qual Audifax talvez nem possa disputar, por impedimento legal (veja notas). Mas o projeto prioritário do prefeito, na verdade, é mesmo disputar o governo em 2022. E a concretização desse projeto depende de uma série de variáveis.
A primeira delas é saber se Casagrande será ou não candidato à reeleição naquele ano. Vai depender da maneira como ele chegará ao fim do seu governo. E vai depender também se, àquela altura, ainda haverá a possibilidade de reeleição (embora soe pouquíssimo provável, tem gente no entorno de Audifax apostando que Bolsonaro vai enviar projeto de lei ao Congresso para acabar com “isso daí”).
A segunda variável diz respeito ao próprio Luciano, hoje anos-luz mais próximo de Casagrande do que Audifax. Se os prefeitos de Vitória e da Serra estiverem no mesmo partido e Casagrande não concorrer à reeleição em 2022, hoje parece muito óbvio que Luciano é quem será o primeiro da fila sucessória, podendo contar com o apoio certo de Casagrande.
Uma das alternativas para Audifax seria a mais simples: sair da Rede (ou do PPS/Rede). A outra é partir para a guerra tribal: entrar no PPS e tentar tomar o controle por dentro, contando talvez para isso com o apoio de um guerreiro respeitável: o governador Paulo Hartung, de quem Audifax tem se aproximado muito (antes da intensificação das conversas de fusão, o prefeito chegou mesmo a convidar Hartung para a Rede). Vai que, em movimento nacional, Hartung acaba entrando nesse novo partido pós-fusão...
Enfim, o quadro nesse partido PPS/Rede será de muitos caciques para pouca tribo. Se a fusão se confirmar, o 1º grande impacto no ES será uma possível disputa interna entre Audifax e Luciano, maiores caciques locais das respectivas siglas, por ascendência política e pelo comando estadual do partido resultante da fusão. E, quem sabe, pela sucessão de Tabagrande, digo, Casagrande, em 2022.
“Prefeito itinerante”
Em agosto de 2012, o STF impediu o 3º mandato consecutivo de um mesmo prefeito em municípios distintos. Vicente Guedes foi prefeito de Rio das Flores (RJ) por dois mandatos sucessivos, de 2001 a 2008. Transferiu o domicílio eleitoral e, em 2008, elegeu-se prefeito de Valença (município vizinho). A coligação adversária recorreu, e o TSE cassou o diploma de Vicente. O prefeito então apelou ao Supremo, que, por maioria de votos, manteve o entendimento do TSE.
Há controvérsias
Mas essa questão não está pacificada no meio jurídico. Para alguns não haveria problema algum. Para outros, só deveria haver proibição no caso de municípios que fazem divisa. No caso concreto de Audifax, ele não poderia se candidatar, em 2020, a prefeito de Vitória, Fundão nem Cariacica.
Planos de contingência
Renato Casagrande (PSB) anuncia um “plano de contingência” (emergência), assim que assumir, em três áreas: saúde pública, segurança e sistema prisional.
Todos os dedos da mão
Casagrande já enumerou quatro secretarias que devem abrigar aliados políticos de outros partidos (possivelmente, a partir de terça-feira): a de Esportes, a de Turismo, a de Desenvolvimento Urbano e, possivelmente, a de Agricultura. Mas há uma quinta que poderá entrar nessa mesma “reserva de mercado”: a Secretaria de Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social (Setades).
Sueli, Givaldo...
Hoje comandada pela economista Andrezza Rosalém, uma técnica puro-sangue, a Setades foi objeto de revezamento de aliados de Hartung e de Casagrande nos últimos três governos, sobretudo do PT e do PDT. Por lá passaram Sueli Vidigal (PDT) e Givaldo Vieira (ex-PT, hoje PCdoB), que voltam a ser cotados.
Neutralidade na Sesp
Um dos critérios que presidiu a opção de Casagrande pelo delegado federal Roberto Sá para a Secretaria de Segurança Pública foi o fato de ele não pertencer nem à Polícia Militar nem à Polícia Civil do Espírito Santo. O governador eleito deu preferência a um quadro neutro, vindo de outra corporação e de fora do Estado, de modo a não incitar rivalidades entre as duas forças policiais capixabas.
Correção
Diferentemente do que publicamos na quinta, Antonio Augusto Genelhu não apoiou a eleição de Homero Mafra à OAB-ES em 2009. Mas eles foram aliados na gestão de Genelhu (2007-2009).
Me explica isso daí
“Brasil acima de tudo”, mas continência para emissário de Trump e o “garoto” com o boné de campanha do próprio?
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.