Há dois anos, perdemos Serginho Egito. Há um ano, Chico Flores. Para este fim de ano de 2018, eu me preparei para as festas na ilusão de que não perderia amigos neste Natal. Mas Zezé Nader nos deixou. E nos fez lembrar, mais uma vez, como repetiu o sacerdote, que todos nós estamos aqui de passagem. E mais: que devemos guardar, dos que se foram, os momentos de alegria, as boas lembranças e a felicidade de termos, com eles, compartilhado belas histórias.
Serginho e Chico eram amigos do jornalismo. Zezé foi sepultado tendo aos seus pés a camisa do castorzinho, símbolo da turma de engenheirandos de 1971 da Escola Politécnica da Ufes. Tenho a honra de fazer parte desta turma que se reúne anualmente para celebrar a vida e a amizade de seus integrantes que se fortalece cada vez mais. Não é por outra razão que boa parte da turma estava em Santo Antônio na última quarta-feira.
Na confraternização deste ano, em novembro, com a saúde debilitada, Zezé não compareceu. Mas certamente tomou conhecimento da oração feita pelos colegas pelo seu restabelecimento. Nos encontros da turma de 1971 é assim: todos, inclusive os ausentes, são lembrados com a recordação carinhosa dos momentos felizes da época estudantil.
E não foi uma época fácil. A imprensa está aí para nos recordar os 50 anos do AI-5 que cassou mandatos, suspendeu as garantias constitucionais – entre as quais o habeas corpus –, colocou em recesso o Congresso e as Assembleias, e instituiu a censura prévia em obras musicais, cinematográficas, teatrais e de TV e em emissoras de rádio e jornais. Sem falar no Decreto 477 que dava ao presidente da República poderes para punir professores, alunos e funcionários considerados contrários ao regime.
Mas foi também uma época de grande desenvolvimento econômico do Estado. Por mais paradoxal que possa parecer, a diminuição da influência política no governo federal viabilizou decisões técnicas que beneficiaram o Espírito Santo como a chegada dos grandes projetos, assim chamadas as usinas de pelotização da Vale, a CST, a Aracruz Celulose e a Samarco.
O crescimento econômico capixaba permitiu que a turma de 1971 conseguisse emprego antes mesmo da formatura. Não me recordo de um colega que tenha ficado desempregado na época do chamado “milagre econômico” em que o país e o Estado cresciam nunca menos do que 9% ao ano.
Foi nesse ambiente, em que os anos de chumbo conviviam com a expansão econômica, que os formandos de 1971 chegaram ao mercado de trabalho e conseguiram construir e fortalecer, ao longo dos tempos, o companheirismo que perdura ainda hoje em qualquer situação.