A recente reafirmação da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos contra a ordenação pastoral de mulheres não representa apenas mais um capítulo de uma antiga controvérsia teológica.
Ela expõe uma questão mais profunda: até que ponto estruturas eclesiásticas continuam reproduzindo mecanismos de exclusão herdados de contextos patriarcais e legitimados por interpretações seletivas das Escrituras?
Os defensores da proibição costumam apresentar sua posição como simples fidelidade bíblica. No entanto, essa narrativa ignora um fato elementar que a escravidão, a segregação racial e diversas formas de subordinação feminina encontraram, em seu tempo, justificativas exegéticas elaboradas e aparentemente consistentes. A questão nunca foi apenas o texto bíblico, mas a forma como ele é interpretado.
O problema não está apenas em determinadas conclusões teológicas, mas na lógica subjacente que frequentemente as sustenta. Em muitos contextos, a resistência à ordenação feminina não decorre exclusivamente de convicções exegéticas, mas de pressupostos culturais profundamente arraigados sobre autoridade, gênero e poder.
Quando homens são sistematicamente considerados mais aptos para liderar, ensinar ou governar simplesmente por serem homens, estamos diante de uma estrutura que se aproxima da misoginia institucional, ainda que revestida de linguagem religiosa.
Isso não significa afirmar que todo cristão contrário à ordenação feminina seja misógino. O debate é mais complexo do que isso. Contudo, também seria ingenuidade ignorar que a misoginia histórica da cultura ocidental influenciou profundamente a formação de muitas tradições eclesiásticas. A igreja não vive fora da história. Ela absorve valores, preconceitos e estruturas de seu tempo, e precisa constantemente submetê-los ao julgamento do evangelho.
Além disso, a exclusão das mulheres do pastorado produz uma contradição difícil de sustentar. Em inúmeras igrejas, mulheres podem evangelizar, discipular, ensinar seminários, dirigir ministérios, coordenar missões, aconselhar famílias e até mesmo exercer, na prática, funções pastorais.
O que lhes é negado não é necessariamente o ministério, mas o reconhecimento institucional desse ministério. Em outras palavras, aceita-se o trabalho, mas recusa-se o título; acolhe-se a função, mas rejeita-se a autoridade.
O movimento de ordenação feminina não nasce de uma capitulação à cultura contemporânea, como frequentemente se afirma. Ele surge, para muitos cristãos, da convicção de que o evangelho aponta para uma comunidade em que os dons de Deus são distribuídos sem distinção de sexo, raça ou condição social.
Se o Espírito chama, capacita e frutifica por meio de mulheres, a igreja deveria perguntar menos sobre as barreiras que pode erguer e mais sobre os motivos pelos quais insiste em mantê-las.
A questão fundamental não é se as mulheres são capazes de pastorear. A história da igreja e a realidade de milhares de comunidades cristãs ao redor do mundo já responderam isso há muito tempo.
A verdadeira pergunta é: por quanto tempo determinadas estruturas continuarão resistindo ao óbvio e quando seremos capazes de admitir que por trás dessa discussão, na verdade, está a mesma lógica que legitima o altíssimo índice de violências contra as mulheres?