“A paz não é, não pode ser nem nunca será a ausência de conflitos”. Com essa afirmação, Jean-Marrie Muller evidencia o que a paz não seria.
O filósofo da não violência enfrenta a questão em uma das suas obras mais expressivas, intitulada "O princípio de não violência". Vejamos os fundamentos da afirmação.
Conflitos são fatos naturais em qualquer sociedade. Onde quer que haja indivíduos em processo de interação, haverá conflito. Isso não necessariamente é ruim! Conflitos são agentes de transformação, que pode ser negativa ou positiva, dependendo de como são administrados.
A inevitabilidade dos conflitos resulta da impossibilidade de satisfação integral de todos os desejos e necessidades que movem os sujeitos no contexto dos processos de interação humana. Trata-se, portanto, de uma realidade da qual não é possível fugir.
Conceber a paz como a ausência de conflitos é um grande equívoco. Mas o que seria a paz?
A paz deve ser compreendida como o resultado útil da gestão construtiva (transformativa) dos conflitos, ou ainda como o domínio não violento dos conflitos. Por esse motivo Jean-Marie Muller (1995) afirmou: “A paz não é, não pode ser nem nunca será a ausência de conflitos, mas o domínio, a gestão e a resolução dos conflitos por meios diferentes da violência destruidora e mortífera”.
Quando estabelecida nas relações de confiança, amor e afeto, a paz é uma condição para a preservação da convivência harmônica de indivíduos. Já quando resulta do conflito, a paz representa um desafio a ser consagrado por quem quer que esteja disposto e empenhado a transformar-se em meio às diferenças com o outro.
As relações de confiança só podem ser estabelecidas quando houver vínculos de proximidade entre indivíduos. Mas é preciso ser realista o suficiente para concluir que as relações de paz jamais serão plenamente assentadas na confiança em relação ao outro, especialmente nas relações de conflito.
Para viver em paz, é necessário respeitar e acolher o desconhecido, tratando-o com justiça e hospitalidade.
Para viver em estado de paz, é também necessário saber lidar com o inevitável (o conflito).
Para pacificar o conflito, efetivamente, é preciso transformar (as partes) primeiro. Não basta que alguém, investido de uma função decisória (jurisdicional ou não), eleja um vencedor que possa ser considerado o detentor da pretensão legítima ou do direito que alega ter.
A conquista de um estado de paz em meio ao conflito é um resultado mais complexo, que exige dos sujeitos em conflito: transformação e compaixão.
Rompendo com qualquer discurso pacifista de defesa da inação, o filósofo da não violência adverte que “não é possível denunciar e combater a violência, a não ser propondo um outro método de ação que nada deva à violência mortífera, mas que seja capaz de estabelecer relações de força que garantam o direito” (1995).
No confronto entre dois discursos binários (o pacifista inócuo e o belicista maniqueísta, que considera os eventos como uma grande batalha entre o justo e o injusto, o bem e o mal, o certo e o errado), a mediação surge como uma espécie de terceira via. Trata-se de um método de ação não violenta capaz de restabelecer as relações de força e proporcionar, por meio do diálogo transformador, a satisfação dos interesses de indivíduos inseridos em relações de conflito, além da abertura de espaços éticos de reconhecimento.
Fonte: MULLER, Jean-Marie. O princípio de não violência: percurso filosófico. Lisboa: Instituto Piaget, 1995. 289 p.