Sair
Assine
Entrar

  • Início
  • Artigos
  • Stablecoins, dolarização digital e o novo desafio econômico global
Rodrigo Horta

Artigo de Opinião

É advogado criminalista, presidente da Comissão de Direito Penal Econômico da OAB/ES
Rodrigo Horta

Stablecoins, dolarização digital e o novo desafio econômico global

O debate sobre criptomoedas deixou de ser apenas tecnológico. Trata-se hoje de uma discussão sobre geopolítica, poder econômico e controle monetário em uma economia cada vez mais digitalizada
Rodrigo Horta
É advogado criminalista, presidente da Comissão de Direito Penal Econômico da OAB/ES

Publicado em 30 de Maio de 2026 às 10:00

Publicado em 

30 mai 2026 às 10:00

Durante muito tempo, o debate sobre criptomoedas permaneceu restrito ao universo da tecnologia e dos investidores especializados. Nos últimos anos, porém, o avanço das chamadas stablecoins transformou esse cenário e levou o tema ao centro das discussões econômicas globais.


As stablecoins, ativos digitais pareados ao dólar norte-americano, passaram a movimentar trilhões de dólares ao redor do mundo e criaram uma nova dinâmica financeira internacional. O crescimento desse mercado deixou de ser apenas uma questão tecnológica e passou a envolver soberania monetária, política cambial e segurança econômica.


No Brasil, os reflexos desse crescimento já aparecem inclusive nas investigações criminais. Dados recentes apontam que o volume de apreensões de criptomoedas realizadas pela Polícia Federal atingiu recorde histórico em 2025, superando R$ 71 milhões. 

Veja Também 

criptomoeda, criptoativo, bitcoin

CriptoJud: o Judiciário entra na era dos criptoativos

Imagem de destaque

Com golpes online e até invasão de casas, ladrões de criptomoedas roubam US$ 700 milhões em explosão de roubos

Imagem de destaque

Criptomoedas: revolução do dinheiro ou ilusão financeira?

O número representa mais de seis vezes o montante apreendido no ano anterior e evidencia o aumento do uso desses ativos em investigações envolvendo lavagem de dinheiro, evasão de divisas e crimes financeiros sofisticados.


Ao mesmo tempo, o volume total de movimentações declaradas à Receita Federal ultrapassou R$ 505 bilhões no último ano, consolidando o Brasil como um dos maiores mercados globais de adoção de criptoativos.


O fenômeno, contudo, é global. Entre 2024 e 2025, a América do Norte concentrou cerca de US$ 2,3 trilhões em movimentações envolvendo ativos digitais. Parte relevante desse crescimento ocorreu após a aprovação da chamada Lei Genius, nos Estados Unidos, que criou um marco regulatório federal para stablecoins.


A legislação passou a exigir que essas moedas digitais tenham lastro integral em dólares ou títulos do Tesouro norte-americano. Na prática, isso transformou as stablecoins em uma espécie de “dólar digital”. 


Quem compra uma stablecoin pareada ao dólar passa a possuir uma exposição econômica muito semelhante à da própria moeda norte-americana.


Esse modelo criou maior segurança jurídica e impulsionou fortemente a circulação desses ativos. Ao mesmo tempo, inaugurou um fenômeno cada vez mais debatido por bancos centrais: a dolarização digital das economias.


Em vez de utilizar moedas nacionais, milhões de pessoas passaram a poupar e movimentar patrimônio por meio de ativos vinculados diretamente ao dólar. Isso gera efeitos profundos sobre economias emergentes. 


De um lado, as stablecoins oferecem proteção contra inflação, facilidade de remessas internacionais e acesso mais rápido ao sistema financeiro global. De outro, enfraquecem moedas locais e reduzem a capacidade de atuação dos bancos centrais.


A Venezuela talvez seja hoje o principal exemplo desse processo. Em meio à hiperinflação, à instabilidade econômica e à perda de confiança no bolívar, o uso de stablecoins cresceu de forma acelerada. 


Para muitos venezuelanos, esses ativos deixaram de ser instrumento de investimento e passaram a funcionar como mecanismo cotidiano de sobrevivência financeira.

bitcoin criptomoeda
Criptomoeda Pixabay

Em diversos casos, stablecoins são utilizadas para recebimento de salários, compras básicas, remessas internacionais e preservação patrimonial. O crescimento também decorre das limitações impostas ao sistema bancário tradicional e dos controles cambiais rígidos existentes no país.


O avanço das stablecoins revela uma transformação profunda do sistema financeiro global. Ao mesmo tempo em que a tecnologia amplia eficiência econômica e moderniza pagamentos internacionais, ela também cria novos desafios regulatórios relacionados à lavagem de dinheiro, rastreamento patrimonial e soberania monetária.


O debate sobre criptomoedas deixou de ser apenas tecnológico. Trata-se hoje de uma discussão sobre geopolítica, poder econômico e controle monetário em uma economia cada vez mais digitalizada.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados