Durante muito tempo, o debate sobre criptomoedas permaneceu restrito ao universo da tecnologia e dos investidores especializados. Nos últimos anos, porém, o avanço das chamadas stablecoins transformou esse cenário e levou o tema ao centro das discussões econômicas globais.
As stablecoins, ativos digitais pareados ao dólar norte-americano, passaram a movimentar trilhões de dólares ao redor do mundo e criaram uma nova dinâmica financeira internacional. O crescimento desse mercado deixou de ser apenas uma questão tecnológica e passou a envolver soberania monetária, política cambial e segurança econômica.
No Brasil, os reflexos desse crescimento já aparecem inclusive nas investigações criminais. Dados recentes apontam que o volume de apreensões de criptomoedas realizadas pela Polícia Federal atingiu recorde histórico em 2025, superando R$ 71 milhões.
O número representa mais de seis vezes o montante apreendido no ano anterior e evidencia o aumento do uso desses ativos em investigações envolvendo lavagem de dinheiro, evasão de divisas e crimes financeiros sofisticados.
Ao mesmo tempo, o volume total de movimentações declaradas à Receita Federal ultrapassou R$ 505 bilhões no último ano, consolidando o Brasil como um dos maiores mercados globais de adoção de criptoativos.
O fenômeno, contudo, é global. Entre 2024 e 2025, a América do Norte concentrou cerca de US$ 2,3 trilhões em movimentações envolvendo ativos digitais. Parte relevante desse crescimento ocorreu após a aprovação da chamada Lei Genius, nos Estados Unidos, que criou um marco regulatório federal para stablecoins.
A legislação passou a exigir que essas moedas digitais tenham lastro integral em dólares ou títulos do Tesouro norte-americano. Na prática, isso transformou as stablecoins em uma espécie de “dólar digital”.
Quem compra uma stablecoin pareada ao dólar passa a possuir uma exposição econômica muito semelhante à da própria moeda norte-americana.
Esse modelo criou maior segurança jurídica e impulsionou fortemente a circulação desses ativos. Ao mesmo tempo, inaugurou um fenômeno cada vez mais debatido por bancos centrais: a dolarização digital das economias.
Em vez de utilizar moedas nacionais, milhões de pessoas passaram a poupar e movimentar patrimônio por meio de ativos vinculados diretamente ao dólar. Isso gera efeitos profundos sobre economias emergentes.
De um lado, as stablecoins oferecem proteção contra inflação, facilidade de remessas internacionais e acesso mais rápido ao sistema financeiro global. De outro, enfraquecem moedas locais e reduzem a capacidade de atuação dos bancos centrais.
A Venezuela talvez seja hoje o principal exemplo desse processo. Em meio à hiperinflação, à instabilidade econômica e à perda de confiança no bolívar, o uso de stablecoins cresceu de forma acelerada.
Para muitos venezuelanos, esses ativos deixaram de ser instrumento de investimento e passaram a funcionar como mecanismo cotidiano de sobrevivência financeira.
Em diversos casos, stablecoins são utilizadas para recebimento de salários, compras básicas, remessas internacionais e preservação patrimonial. O crescimento também decorre das limitações impostas ao sistema bancário tradicional e dos controles cambiais rígidos existentes no país.
O avanço das stablecoins revela uma transformação profunda do sistema financeiro global. Ao mesmo tempo em que a tecnologia amplia eficiência econômica e moderniza pagamentos internacionais, ela também cria novos desafios regulatórios relacionados à lavagem de dinheiro, rastreamento patrimonial e soberania monetária.
O debate sobre criptomoedas deixou de ser apenas tecnológico. Trata-se hoje de uma discussão sobre geopolítica, poder econômico e controle monetário em uma economia cada vez mais digitalizada.