A foto tradicional tirada do governo Casagrande, recém-reeleito, é inescapável: um governo que se reafirma masculino e branco, com exceções que confirmam a regra. Assim pode ser lida a tradicional foto que foi tirada nas escadarias do Palácio Anchieta.
Apenas dois dos vinte e seis secretários são visivelmente negros, e somente cinco mulheres integram o primeiro escalão. O incrível é a estética predominantemente branca e masculina não acender o alerta num estado com 62% de pessoas negras e de 51% de mulheres. Atendo-se à formação sociorracial brasileira, a mensagem é a mesma que se apresentou no século XIX: só os brancos têm condições de conduzir a política, a nação, o povo.
No Brasil, a colonização europeia teve como espinhal dorsal a ideia de raça branca superior. A Imigração, como política de Estado, carregava consigo a compreensão de que as pessoas ideais para a agricultura eram os colonos europeus, principalmente os alemães. Ou seja, as pessoas negras escravizadas que trabalhavam de forma forçada na construção da riqueza do país, a partir daquele momento, seriam descartados do processo produtivos.
O que se esperava é que a estrutura social que havia sido construída se mantivesse nas mãos da elite branca. Assim, com o total estrangulamento do sistema escravista, acreditava-se que as pessoas negras desapareceriam pela morte ou que embranqueceriam por causa do cruzamento. No fundo, a ideologia racista dizia que só os brancos possuíam capacidade intelectual para as ciências, para o desenvolvimento e para a civilização.
Seguindo essa mesma linha, quando um governo num estado com 62% de pessoas negras monta um secretariado com 26 pessoas, das quais apenas duas são negras, o que existe de fato é a mesma reprodução racista do século XIX. Em outras palavras, o progressismo não foi suficiente para mudar a realidade da população negra neste país. E não o foi porque essas mesmas pessoas, que compõem os Poderes da República, não têm compromisso de fato com o antirracismo, que na realidade precisa ser prático e como política de Estado, impondo-se às esferas públicas, mistas e privadas.