Derivado do inglês, o termo "burnout" significa "destruição total pelo fogo" e não à toa é essa a analogia que nomeia a síndrome de esgotamento físico e emocional diretamente relacionada ao trabalho. Descrita desde o início da década de 1970, ela vem se tornando cada vez mais alarmante, especialmente a partir da pandemia de Covid-19.
O fenômeno não se restringe a gêneros, ocupações, faixas etárias ou níveis socioeconômicos, embora se saiba que trabalhadores da educação e da saúde são tradicionalmente os mais afetados. O burnout é caracterizado por exaustão, prejuízos emocionais e cognitivos (como crises de ansiedade, humor deprimido e esquecimentos frequentes) e distanciamento mental (da atividade que se executa e/ou das pessoas que a envolvem).
Em sua vivência, o trabalhador é "consumido" – como acontece a qualquer coisa incendiada – por um estresse crônico e passa a não ter mais condições ou energia para o trabalho que, até então, desenvolvia de forma satisfatória ou sem dificuldades aparentes. O fato é que, com o decorrer de meses ou anos, a carga de trabalho desgastante e, por vezes, excessiva cobra seu preço.
Preço, aliás, caro. E isso tanto para aquele que sofre e precisa arcar com tratamentos (sobretudo, psicológico e psiquiátrico), como para a sociedade que custeia os afastamentos por meio dos institutos de previdência e, ainda, fica a carecer do serviço ora prestado ou o tem prejudicado devido à alta taxa de rotatividade de pessoal.
Embora seja comum a tendência de responsabilização do trabalhador, atribuindo-se seu sofrimento a questões de ordem pessoal, pesquisas mostram que as causas do burnout residem essencialmente nas características do trabalho e não de quem trabalha. Logo, os fatores de personalidade atuam apenas como moderadores, isto é, eles interagem na avaliação que a pessoa faz das demandas do trabalho e dos recursos que tem disponíveis para lidar com elas, mas não determinam o resultado dessa relação.
Esse dado aponta, portanto, para a necessidade de intervenção direta nos processos de trabalho, de forma ampliada. Inseridos em um mundo governado pela lógica do capital e, por consequência, da competitividade, investir na saúde mental dos trabalhadores pode parecer, à primeira vista, um contrassenso, mas se faz urgente (tanto é que, mesmo entre os servidores de carreira, há uma crescente de desligamentos ‘voluntários’ por motivos relacionados à saúde psíquica).
Nesse contexto, o pontapé organizacional deve passar pela reavaliação dos estilos de liderança daqueles que ocupam cargos de gestão, os quais precisam encorajar os trabalhadores a usarem seus talentos e valorizá-los por isso, apoiá-los nos desafios cotidianos, fortalecer as relações de cooperação entre eles, proporcionar-lhes segurança psicológica e permitir, o tanto quanto possível, a participação em tomadas de decisão.
O contrário – e, sabemos, normalmente feito – que é coagir, estimular competições e enfraquecer os times reduz o engajamento dos trabalhadores, além de configurar assédio, isto é, violência laboral. Também é fundamental garantir e respeitar horários de descanso, durante e fora da jornada. Neste ponto, inclusive, vale o alerta a respeito do bombardeio de informações e demandas em grupos institucionais de aplicativos de mensagens.
Esse é um fenômeno contemporâneo que potencializa o risco de desenvolvimento da síndrome, na medida em que o acesso permanente ao trabalhador se torna naturalizado, mesmo quando, por direito, ele estaria desconectado do contexto laboral. Dada a complexidade do burnout, é claro que outros fatores, para além dos aqui mencionados, merecem atenção, mas não resta dúvidas de que, enquanto os modos de gestão estiverem focados somente na atividade – sem investimentos no bem-estar do trabalhador e em ambientes de trabalho saudáveis – será inevitável ‘chegar uma hora que chega!’.