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Tarcísio Bahia

Não há cidade inteligente sem um povo com boa educação

A criação de ilhas de excelência na produção de conhecimento como estratégia de poder sócio-econômico-cultural é pertinente e tem paralelo com a atual discussão dos parques tecnológicos

Publicado em 03 de Abril de 2018 às 20:48

Públicado em 

03 abr 2018 às 20:48

Colunista

As cidades, cada uma a seu modo e de acordo com sua época e os recursos disponíveis, sempre foram “inteligentes” Crédito: Pixabay

O termo inteligente, cujo significado adotado aqui é “grande capacidade cognitiva”, passou a ser designado para qualificar as cidades do século XXI que usam hegemonicamente os sistemas informacionais para monitorar, controlar e/ou operar toda sorte de serviços públicos urbanos, tais como iluminação viária, parque semafórico, rede de drenagem, coleta de lixo, transporte coletivo, segurança pública, entre outros. No caso da drenagem, por exemplo, os bueiros das ruas podem conter sensores que enviam dados a uma central de serviços, que informa quando há algum entupimento, demandando necessidade de desobstrução; em seguida uma equipe de manutenção é enviada ao local.

É certo, portanto, que com a massificação da internet 4.0, as cidades, passo a passo, adotarão cada vez mais tais tecnologias em prol da eficiência dos serviços prestados ao cidadão.

Do ponto de vista semântico, porém, quando grande parte das cidades do mundo adotarem as ferramentas digitais nessas ações de monitoramento ou controle dos serviços, a alcunha “inteligente” não fará mais sentido.

Por outro lado, se para ser inteligente uma cidade precisa dominar e adotar tais recursos tecnológicos, a inexistência de tais dispositivos seria a condição para que uma cidade fosse classificada como “ignorante”?

O renomado historiador francês Jacques Le Goff em seu livro “Por amor às cidades” (1997) apresenta diversos argumentos em favor da cidade medieval, mostrando seus avanços sociais e até mesmo os pontos de contato com a cidade contemporânea do final do século XX. Le Goff nos oferece vários exemplos, dos quais destacamos aqui as universidades. Como se sabe, as primeiras universidades datam da Idade Média.

A criação de ilhas de excelência na produção de conhecimento como estratégia de poder sócio-econômico-cultural é pertinente e tem paralelo com a atual discussão dos parques tecnológicos, questão recente intensamente debatida por ocasião da revisão do PDU de Vitória.

As cidades, cada uma a seu modo e de acordo com sua época e os recursos disponíveis, sempre foram “inteligentes”. Adotar tal designação não resolve muita coisa, apenas indica um momento histórico de inflexão para as cidades.

Mais uma vez recorremos ao livro de Le Goff, que cita o teólogo alemão Alberto, o Grande, para quem a cidade não é feita de pedras, mas de cidadãos. Ou seja, o foco deve ser sempre o homem. E, aí, a questão fundamental é o que todos já sabem: educação! Educação é o caminho para o conhecimento. Portanto, não há cidade inteligente sem um povo com boa educação.

*Tarcísio Bahia é arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES

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