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Renata Melo

Artigo de Opinião

É médica, membro da Sociedade Brasileira de Tricologia
Renata Melo

Mitos sobre o cabelo: o que realmente faz diferença para a saúde dos fios

Cuidar do cabelo, portanto, vai muito além de escolher um bom shampoo ou seguir uma tendência nas redes sociais. É preciso olhar para o couro cabeludo, para a fibra e também para o organismo como um todo
Renata Melo
É médica, membro da Sociedade Brasileira de Tricologia

Publicado em 18 de Agosto de 2026 às 10:00

Publicado em 

18 ago 2026 às 10:00
Cabelo é um assunto cercado de crenças. Arrancar fios brancos faz nascer dois, lavar diariamente provocaria queda, vitaminas fariam o cabelo crescer e produtos mais caros seriam necessariamente melhores. 

Com tantas informações é um desafio necessário separar o que realmente tem fundamento do que é apenas mito, não apenas para a aparência dos fios, mas para a saúde do couro cabeludo.

A realidade é que cabelo e couro cabeludo precisam ser observados de maneira individualizada. A queda capilar, por exemplo, pode ter diferentes causas, incluindo fatores genéticos, alterações hormonais, estresse, deficiências nutricionais, doenças e até hábitos de cuidado. 

Por isso, ao perceber  uma mudança persistente, o mais importante é entender o que está acontecendo antes de procurar uma receita milagrosa.
O que é mito
Um dos mitos mais conhecidos é o de que arrancar fios brancos faz com que nasçam dois no lugar. Isso não é verdade, porém o hábito também não é recomendado, por poder causar prejuízos ao folículo capilar. O crescimento acontece a partir do folículo, no couro cabeludo, portanto a prática pode impedir que o cabelo cresça corretamente.

Também é muito comum ouvir que lavar o cabelo todos os dias provoca queda. Isso é outro mito. A frequência de lavagem deve levar em consideração o tipo de cabelo, a oleosidade e as características do couro cabeludo. 

Em pessoas com couro cabeludo oleoso, por exemplo, lavar diariamente pode ser perfeitamente adequado. O importante é realizar a higienização de forma delicada e com produtos apropriados.
Lavar o cabelo corretamente é essencial para evitar outros problemas
Lavar o cabelo corretamente é essencial para evitar outros problemas Shutterstock
É preciso ainda diferenciar queda de quebra. O fio que se desprende desde a raiz não é a mesma coisa que aquele que se rompe ao longo do comprimento. Por muitas vezes, a percepção de mais fios no banho simplesmente ocorre porque cabelos que já estavam no final de seu ciclo e são eliminados naquele momento. A perda diária de uma quantidade de fios faz parte do ciclo normal do cabelo.

Outro mito bastante difundido é que quanto mais vitaminas uma pessoa tomar, mais o cabelo crescerá. Não funciona dessa maneira. Deficiências nutricionais podem estar relacionadas à queda, mas excesso de suplementação, ainda mais sem indicação, não significa acelerar o crescimento. 

Pelo contrário: o excesso de determinados nutrientes pode inclusive contribuir para problemas, inclusive queda capilar. A suplementação deve ser baseada na avaliação individual e, quando necessário, em exames que identifiquem deficiências.

Dormir com o cabelo molhado também não provoca queda pela raiz, como muitas pessoas acreditam. O principal cuidado, nesse caso, está relacionado à fibra capilar. Quando está molhado, o fio fica mais vulnerável ao estiramento, ao atrito e à quebra. 

Durante o sono, o contato com o travesseiro e os movimentos da cabeça podem aumentar esse dano, especialmente em cabelos finos ou que já estejam fragilizados por descolorações, alisamentos, colorações ou uso frequente de calor.
 
Além disso, manter o couro cabeludo úmido por períodos prolongados pode favorecer um ambiente propício à proliferação de fungos e bactérias e, em pessoas predispostas, contribuir para alterações como dermatite seborreica ou foliculite. Isso não significa que dormir ocasionalmente com os cabelos molhados vá necessariamente causar uma infecção, mas é um hábito que, quando frequente, vale a pena evitar.

Por isso, sempre que possível, o ideal é secar os cabelos antes de dormir, principalmente o couro cabeludo. Se for necessário deitar com os fios ainda úmidos, o mais importante é evitar prendê-los com força e reduzir a manipulação enquanto estiverem molhados.
O que é verdade

Por outro lado, existe uma crença que é, sim, verdadeira: prender o cabelo com muita força pode provocar queda. Rabos de cavalo, coques, tranças e extensões muito apertadas submetem os fios e os folículos a uma tração repetitiva. 


Com o tempo, isso pode provocar a chamada alopecia por tração e, em casos mais avançados, a perda pode se tornar permanente. Dor ou sensação de repuxamento durante o penteado são sinais de que a tração está excessiva.

O estresse também pode estar relacionado à queda dos cabelos. O organismo responde a situações de estresse físico ou emocional de diferentes maneiras e, em alguns casos, o aumento da queda pode aparecer apenas semanas ou meses depois do acontecimento que desencadeou o processo. 


Infecções, febre, cirurgias e mudanças importantes no organismo também podem estar associados a esse tipo de queda. Por isso, nem sempre existe uma relação temporal imediata entre o evento e a percepção da perda dos fios.

Outro ponto que merece atenção é a ideia de que produto caro é sinônimo de produto melhor. O preço não determina, sozinho, a qualidade ou a indicação de um cosmético. Um produto precisa ser escolhido de acordo com as necessidades do fio e do couro cabeludo.


 Além disso, cosméticos podem melhorar características como hidratação, brilho, textura e aparência, entretanto, não substituem uma avaliação médica quando existe queda persistente ou alguma alteração no couro cabeludo.

Há ainda muita confusão em torno dos shampoos para queda. O shampoo pode fazer parte de uma rotina adequada de cuidados,porém, não devemos esperar que um produto de higiene seja capaz de tratar sozinho todas as causas de alopecia. 


A queda de cabelo é um sintoma, e o tratamento depende da identificação de sua origem. Em algumas situações, existem tratamentos específicos que podem ajudar, contudo,  precisam ser direcionados de acordo com o diagnóstico.

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Quando falamos em química e calor, por outro lado, temos uma afirmação verdadeira. Descolorações, alisamentos, colorações e o uso frequente de ferramentas térmicas podem danificar a fibra capilar, deixando-a mais frágil e suscetível à quebra. 


Isso não significa que procedimentos químicos sejam proibidos, mas que precisam ser realizados com cuidado, respeitando as características dos fios e evitando excessos. O uso de calor também deve ser moderado e, sempre que possível, realizado em temperaturas mais baixas.


É importante lembrar que a fibra capilar que já está fora do couro cabeludo não possui capacidade de se regenerar biologicamente. Podemos melhorar sua aparência, proteger sua estrutura e reduzir novos danos, mas uma fibra que sofreu uma deterioração importante não simplesmente volta ao seu estado original.

O maior mito

Talvez o maior mito, entretanto, seja acreditar que existe uma única solução para todos os cabelos.

Cada pessoa tem uma genética, uma rotina, uma alimentação, um histórico hormonal e de saúde, características de couro cabeludo e hábitos de cuidado diferentes. Por isso, a mesma estratégia que funciona para uma pessoa pode não ser adequada para outra.

A verdade é que a queda persistente, o afinamento dos fios, o aumento da área de couro cabeludo visível, o surgimento de falhas ou alterações como coceira, descamação, dor e vermelhidão são sinais que merecem atenção. Quanto mais cedo uma alteração capilar é investigada, maior a possibilidade de identificar sua causa e estabelecer uma conduta adequada.

Cuidar do cabelo, portanto, vai muito além de escolher um bom shampoo ou seguir uma tendência nas redes sociais. É preciso olhar para o couro cabeludo, para a fibra e também para o organismo como um todo.

Informação também é uma forma de cuidado. Antes de investir em uma infinidade de produtos, suplementos ou receitas caseiras, é importante entender o que está acontecendo.

O cabelo pode revelar sinais de que algo precisa ser investigado, e ignorar uma queda persistente em busca de uma solução rápida pode atrasar o diagnóstico. Quanto mais individualizado for o cuidado, maiores são as chances de preservar a saúde dos fios e do couro cabeludo ao longo do tempo.

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