O mercado editorial brasileiro gosta de defender a bibliodiversidade. O termo aparece em feiras, festivais e discursos sobre democratização cultural. Mas existe uma pergunta que raramente é feita de maneira direta: como sustentar economicamente essa diversidade?
Editoras, livrarias, distribuidores, autores e leitores fazem parte do mesmo ecossistema. E é importante reconhecer que o mercado editorial brasileiro construiu, ao longo do tempo, uma relação de confiança entre editoras e livrarias independentes por meio do sistema de consignação.
Diferentemente de outros setores do varejo, muitas editoras assumem parte do risco do estoque, permitindo que pequenas livrarias trabalhem com catálogos mais amplos e tenham acesso a títulos que talvez não conseguissem adquirir de outra forma.
Esse modelo é um ativo importante para a manutenção da diversidade editorial. Mas existe uma tensão crescente dentro dessa mesma relação.
Ao mesmo tempo em que pequenas livrarias enfrentam custos de operação, frete, reposição e formação de público, muitas editoras passaram também a vender diretamente em seus próprios e-commerces, frequentemente com descontos agressivos.
Na prática, a livraria independente passou a competir não apenas com marketplaces e plataformas digitais, mas também com fornecedores que antes ocupavam exclusivamente a posição de parceiros comerciais. Na ponta do lápis, a disputa se torna desigual.
Enquanto grandes plataformas operam em escala, pequenas livrarias sustentam custos territoriais, promovem eventos, fazem curadoria e mantêm viva a experiência física do livro em cidades onde o ambiente digital não constrói comunidade. Não vendem apenas produtos: formam leitores, criam descoberta e estabelecem vínculos culturais que dificilmente podem ser replicados por algoritmos.
Recentemente, a revista Fast Company publicou uma matéria sobre a Bookshop.org, plataforma criada em 2020 para ajudar livrarias independentes a sobreviver diante do avanço da Amazon. Segundo Andy Hunter, fundador da iniciativa, havia mais de 5 mil livrarias associadas à American Booksellers Association em 1995. Em 2019, esse número caiu para 1.889. Mais da metade desapareceu.
Hunter comentou na reportagem que “livrarias não são um negócio de alta margem. São um negócio de muito amor”. A frase é bonita, mas também revela um risco.
Existe uma romantização perigosa da livraria independente como espaço permanente de resistência cultural. Porque resistência, quando vira modelo de operação, deixa de ser romantismo e passa a ser precarização.
Ainda assim, a própria reportagem destaca que livrarias independentes oferecem algo que plataformas dificilmente conseguem substituir: conexão, descoberta e formação de leitores.
Nesse cenário, uma iniciativa recente da Prefeitura de São Paulo acende uma pequena esperança. Notícia publicada pelo PublishNews divulgou o edital voltado para livrarias de rua dentro da Política Nacional Aldir Blanc. A iniciativa prevê premiações para livrarias reconhecidas por impacto cultural, atuação comunitária e formação de leitores. Ainda que não resolva estruturalmente os desafios do setor, o edital possui um valor simbólico importante: reconhecer que livrarias exercem uma função cultural que ultrapassa a simples venda de produtos.
Se a bibliodiversidade é realmente um valor para o mercado editorial, talvez tenha chegado a hora de discutir modelos mais equilibrados de sustentabilidade entre todos os elos da cadeia. Porque não existe diversidade de catálogo sem diversidade de livrarias.