Começo este artigo lembrando de um grande sucesso da música popular brasileira: “Quando você foi embora / Fez-se noite em meu viver / Forte eu sou, mas não tem jeito / Hoje eu tenho que chorar / Minha casa não é minha / E nem é meu este lugar / Estou só e não resisto / Muito tenho pra falar / Solto a voz nas estradas / Já não quero parar / Meu caminho é de pedras / Como posso sonhar / Sonho feito de brisa / Vento vem terminar / Vou fechar o meu pranto / Vou querer me matar” (Nascimento & Brant, 1967, faixa 1).
O título "Travessia", canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, faz referência à última palavra do romance "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa – livro preferido de Fernando Brant na época: “Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia” (Rosa, 2019, p. 486).
Na obra "João Guimarães Rosa – Biografia", de Leonencio Nossa (Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira; Topbooks, 2026), é informado que “João Guimarães Rosa nasce a 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, então distrito do município de Sete Lagoas, na Região Central de Minas Gerais, na casa-mercearia dos pais, o comerciante Florduardo Pinto Rosa, o Fulô, e Francisca Lima Guimarães, a Chiquitinha. Fulô registra o menino com o nome do santo das festas juninas e do patriarca de sua família, o então presidente do estado, Pinheiro da Silva” (Nossa, 2026, p.15).
Num outro momento, o autor relata: “16 de julho de 1956. Surpreende o mercado com o lançamento de outro livro volumoso, 'Grande sertão: Veredas', seu primeiro romance. É a história de Riobaldo, que narra sua vida de jagunço e sua paixão por Diadorim” (Nossa, 2026, p.24).
Por que "Grande Sertão: Veredas"? João Guimarães Rosa responde: “Porque o sertão está dentro da gente. Cada um tem o seu sertão. Tem uns que têm um sertão pequeninho, tem outros que têm um sertão grande. Cada um sabe qual é o seu. Você tem que viver de acordo com o seu sertão” (Rosa in Nossa, 2026, p. 323).
Segundo Willi Bolle: “A tese aqui discutida é que o romance de Guimarães Rosa é o mais detalhado estudo de um dos problemas cruciais do Brasil: a falta de entendimento entre a classe dominante e as classes populares, o que constitui um sério obstáculo para a verdadeira emancipação do país. Ao comparar o 'Grande Sertão: Veredas' com os referidos ensaios sociológicos e historiográficos, cheguei à conclusão de que esse livro é o romance de formação do Brasil. [...] Eis precisamente também a proposta de Guimarães Rosa, no explosivo contexto social latino-americano; e por isso o seu 'Grande Sertão: Veredas' merece ser qualificado como uma inovação que, dessa forma, não existe em nenhum outro livro sobre o Brasil. É o romance de formação do país, na medida em que o autor, através da invenção de linguagem, refinou o médium para este país se pensar a si mesmo” (Bolle, 2023, p. 11-12).
De 18 de novembro a 20 de dezembro de 1985, em 25 capítulos, a TV Globo, que comemorava 20 anos de existência, exibiu a minissérie "Grande Sertão: Veredas", livremente inspirada no romance homônimo. Considerada “inadaptável” por sua complexidade narrativa, a minissérie foi bem aceita pelo público e tornou-se um clássico da TV brasileira.
Eu assisti a todos os capítulos e ao mesmo tempo relia o "Grande Sertão: Veredas"; era sensacional ver o livro na televisão. Para nossa alegria, a Globoplay está reapresentando na íntegra os capítulos da minissérie. Algo irrecusável para quem não conhece a obra.
Na Literatura Brasileira há um antes e um depois de "Grande Sertão: Veredas". O antigo e atual dilema: a luta do bem contra o mal, Deus e o Diabo, percorrem todas as páginas da obra. 70 anos depois, a travessia continua, e os fatos da história brasileira seguem imitando o livro de João Guimarães Rosa. As ambiguidades humanas são o adubo do romance. A lição que fica: não importa a partida, não importa a chegada... O que importa é a travessia!