Antônio Carlos de Medeiros*
O presidente Bolsonaro virou vidraça. O crescente desgaste político causado pelo caso do seu filho, o senador eleito Flavio Bolsonaro, já está minando, prematuramente, a imagem do presidente. Em menos de um mês, ele queimou gordura de popularidade. Está encurtando a “lua de mel” dos primeiros seis meses. A resultante pode ser a perda de força política.
Isso tudo repercute no momento político, exatamente na hora em que o novo governo vai ter que enfrentar o teste político de convivência com o novo Congresso a partir da sexta feira, 1º de fevereiro. O timing da crise do filho não podia ser pior. E a comunicação errática e equivocada do governo sobre o episódio está amplificando o problema.
Vem aí o novo Congresso. Lá onde a vaca tosse. Na Câmara, levantamento realizado pelo site Congresso em Foco indicava que 288 deputados poderiam integrar a base governista. O governo não teria os 308 votos para aprovar a reforma da Previdência. Agora, parte do chamado Centrão movimenta-se para ir para o lado da oposição ao governo, na onda do desgaste da força do presidente. A base aliada na Câmara pode diminuir.
Já no Senado, o mesmo levantamento do site indicava que o governo teria apenas 33 senadores na base. Faltariam oito senadores para maioria simples (leis ordinárias) e 16 para emendas constitucionais (caso da reforma da Previdência). Pode ser que as negociações tenham que ser na base do caso a caso, o que é tarefa intrincada e fator de instabilidade política.
O presidente tem muita gordura de popularidade e força política para queimar, mas o desgaste com o problema do seu filho “inflou o ego” dos parlamentares do novo Congresso. Movimentações políticas e articulações partidárias indicam que poderá se tornar mais difícil aprovar as pautas de Paulo Guedes e Sérgio Moro. Sem falar das outras pautas na área de costumes. A “bomba fiscal” paira sobre o governo: 95% das despesas primárias (que excluem juros) são obrigatórias.
Terá o governo capacidade para garantir apoio legislativo? A prova de fogo número 1 será a eleição, na próxima sexta-feira, dos novos presidentes da Câmara e do Senado. Os favoritos Rodrigo Maia (Câmara) e Renan Calheiros (Senado) serão aliados para incluir na pauta as agendas necessárias?
Há dúvidas. A Câmara renovou 52,5% dos seus integrantes. O Senado, 59%. A dispersão partidária torna o novo Congresso o mais fragmentado da história da República. São 30 partidos na Câmara e 21 no Senado. Daí vem um potencial risco político. Esta realidade leva à possibilidade de um governo plebiscitário e minoritário. Isto é fonte de impasses recorrentes entre o Executivo e o Legislativo, dificultando a formação de maiorias estáveis de governo.
Carlos Pereira, da FGV-Rio, vaticina: “impasses dessa natureza levam à insolvência de governos, que tendem a não completar seus mandatos”. Outra vez?
*O autor é pós-doutor em ciência política pela The London School of Economics and Political Science