O fato é que a democracia está em xeque e em choque, totalmente abalada, coitada. Quem ver de fora, acha que as zebras estão enlouquecidas cheias de argumentos e discursos que caem como uma luva para os dois lados. É uma euforia coletiva, um devaneio em grupo cheio de especulações de ambas faces da moeda.
A zebra branca vai pegar o passaporte e vai se mudar. Cansou daquele país provinciano. Já a zebra preta vai continuar a luta por lá, pois acha que apenas se mudar é algo muito simplista. A realidade pede união.
Mas a união não virá por mágica nem em discursos inflamados. Qualquer semelhança com o Brasil contemporâneo não é coincidência: é um espelho escancarado da nossa própria fratura. Aqui, como na savana da fábula, esquecemos que a identidade nacional é feita de contrastes indissociáveis. A eleição que aconteceu não pode ser tratada como uma rinha em que uma metade sonha em aniquilar a outra.
Quando as urnas se abriram e o veredito popular foi proclamado, a votação teve ou não teve (fique ao seu critério) cumprido o seu rito civilizatório, mas o país continuará sendo habitado por todos nós. Não há passaporte que apague a nossa raiz nem trincheira capaz de sustentar um futuro viável. Se a disputa política continuar cega ao fato de que a zebra preto e branco compõe o mesmo corpo, o resultado de qualquer pleito já estará selado: perderemos todos. Deu zebra no Brasil quando o voto virou arma em vez de pacto cidadão.