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Flávia Varela

Artigo de Opinião

É jornalista
Flávia Varela

Eleições 2026: deu zebra

O país continuará sendo habitado por todos nós; não há passaporte que apague a nossa raiz nem trincheira capaz de sustentar um futuro viável
Flávia Varela
É jornalista

Publicado em 04 de Novembro de 2026 às 16:00

Publicado em 

04 nov 2026 às 16:00
Em um lugar não muito distante, existia um País onde viviam várias zebras em harmonia. Elas acordavam, iam trabalhar, estudavam, comiam, sorriam, bebiam e conversavam, sempre todas juntas. Quase tudo estava sob controle e a paz reinava naquele lugar.

De vez em quando, afinal nem tudo era flores, elas tinham desavenças, valores e pensamentos diferentes, mas nada que abalasse a convivência. Certa vez, no entanto, as zebras se rebelaram e olha o motivo: umas não gostavam do branco das companheiras, enquanto que, as outras não gostavam do preto.
Urna eletrônica: Eleições 2026 Crédito: ABr Edson Chagas
Ora, elas esqueceram que eram iguais formadas pela cor branco e preta. O nível de disparidades era tão grande que o grupo x propôs ao grupo y separar do País e formar um Estado independente. Seria mais ou menos como o que acontece na Coreia do Sul e na do Norte ou podiam ainda declarar uma Guerra Fria e separar dois mundos divergentes por um muro, mas as zebras esqueceram que a Constituição daquele local não permitia tamanho descabimento.

Começaram então os boicotes. “Ah se você não é uma zebra branca, não frequentamos mais o seu estabelecimento”, dizia a Zebranélia cliente ou ainda “A zebra preta é burra. Ela não tem o costume de ler livros, não a quero em minha livraria”, dizia o vendedor Zébrudo.

Perdoa Pai, elas não sabem o que fazem. Faltava ali um espelho e uma autorreflexão: Até que ponto a zebra branca, que também é preta, pode ir para defender suas opiniões? E a zebra preta, que também é branca, será que conseguiria aceitar o fato de viver em uma democracia ou uma ditadura? (depende do ponto de vista).

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O fato é que a democracia está em xeque e em choque, totalmente abalada, coitada. Quem ver de fora, acha que as zebras estão enlouquecidas cheias de argumentos e discursos que caem como uma luva para os dois lados. É uma euforia coletiva, um devaneio em grupo cheio de especulações de ambas faces da moeda.


A zebra branca vai pegar o passaporte e vai se mudar. Cansou daquele país provinciano. Já a zebra preta vai continuar a luta por lá, pois acha que apenas se mudar é algo muito simplista. A realidade pede união.

Mas a união não virá por mágica nem em discursos inflamados. Qualquer semelhança com o Brasil contemporâneo não é coincidência: é um espelho escancarado da nossa própria fratura. Aqui, como na savana da fábula, esquecemos que a identidade nacional é feita de contrastes indissociáveis. A eleição que aconteceu não pode ser tratada como uma rinha em que uma metade sonha em aniquilar a outra.

Quando as urnas se abriram e o veredito popular foi proclamado, a votação teve ou não teve (fique ao seu critério) cumprido o seu rito civilizatório, mas o país continuará sendo habitado por todos nós. Não há passaporte que apague a nossa raiz nem trincheira capaz de sustentar um futuro viável. Se a disputa política continuar cega ao fato de que a zebra preto e branco compõe o mesmo corpo, o resultado de qualquer pleito já estará selado: perderemos todos. Deu zebra no Brasil quando o voto virou arma em vez de pacto cidadão.
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