A modernidade líquida traz consigo uma misteriosa fragilidade dos laços humanos. O filósofo polonês Zygmunt Bauman falava sobre a fluidez nesses novos tempos líquidos, que escorrem, esvaem-se, respingam, transbordam, vazam. Tudo é temporário e incapaz de manter a própria forma.
Sem abraço, aperto de mão e sola de sapato – suplantados pela pandemia e pela quarentena –, a comunicação entra de corpo inteiro na campanha eleitoral deste ano. Mas onde foram parar as relações humanas nesses tempos difusos?
Para responder a essa questão, apelo para Hannah Arendt, outra fonte inesgotável de conhecimento sobre a modernidade. Em “A Condição Humana”, a filósofa alemã registra que, por viverem juntos, os homens são seres condicionados: tudo com o que entram em contato torna-se uma condição de sua existência. E que, de todas as atividades necessárias e presentes nas comunidades humanas, somente duas são consideradas políticas: a ação e o discurso.
Estar sintonizado com a nova ordem mundial, criada a partir do alastramento do vírus, e falar a linguagem do coração das pessoas serão peças fundamentais na montagem desse quebra-cabeças que se tornou a campanha eleitoral de 2020. A boa notícia é que a imagem, que por vezes se mostra estilhaçada, tem todas as peças disponíveis no tabuleiro.
A crise sanitária tem data para acabar: no tempo em que for criada uma vacina. Os problemas econômicos e sociais, por sua vez, não. O candidato que se mostrar preparado para gerir essas questões tem tudo para sair na frente. Esta não será uma eleição dominada por outsiders, como foram as de 2016 e 2018, e sim um pleito daqueles que se mostrarem preparados para encarar a coisa pública com competência, com um olhar ancorado na gestão e outro no ser humano. A inovação e a sustentabilidade também nunca se fizeram tão necessárias.
Mais do que nunca, o eleitor quer ter um encontro com o futuro que por ora enxerga nebuloso e obscuro; quer poder voltar a sonhar e fugir das duras exigências e asperezas que essa vida moderna tem lhe imposto.
Esse são os grandes desafios destes dias em que as incertezas são muitas, e as esperanças, regentes do tempo.
*O autor é jornalista, consultor político e especialista em gestão de imagem, reputação e crise