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É jornalista e escritora

Educar meninos, responsabilizar homens: o caminho para romper a violência

É um sinal positivo ver cada vez mais homens se manifestando nas redes sociais, participando de campanhas, gravando vídeos e dizendo claramente que a violência contra mulheres não pode ser tolerada

  • Isa Colli É jornalista e escritora
Publicado em 14/03/2026 às 10h00

O mês das mulheres é um momento de reflexão, mas também de enfrentamento de uma realidade que ainda persiste: ser mulher, em muitos lugares, continua sendo um risco. O aumento dos casos de feminicídio no Brasil revela uma realidade que insiste em se repetir: relações marcadas pela ideia de posse, pela incapacidade de aceitar o fim de um relacionamento e pela selvageria como resposta.

Ainda é necessário lembrar que ser mulher, em muitos lugares, continua sendo um risco. O aumento dos casos de feminicídio no Brasil revela uma realidade que insiste em se repetir: relações marcadas pela ideia de posse, pela incapacidade de aceitar o fim de um relacionamento e pela opressão como resposta.

Recentemente, a tragédia de Itumbiara, Goiás, chocou o país. O assassino dos próprios filhos, de 12 e 8 anos, que também tirou a própria vida, agiu no padrão chamado de violência vicária, quando o agressor atinge pessoas próximas da mulher para puni-la. Como se não bastasse a dor de perder os filhos, a mãe das crianças ainda foi alvo de ataques e notícias falsas nas redes sociais. É uma sequência cruel que mostra como a violência contra mulheres pode ultrapassar todos os limites, inclusive o da própria tragédia.

Casos assim não surgem do nada. Eles nascem em uma cultura que ainda naturaliza o controle sobre a vida das mulheres. Começam em pequenas atitudes: no ciúme tratado como prova de amor, na dificuldade de aceitar a autonomia feminina, na ideia de que o fim de um relacionamento pode ser uma humilhação.

Por isso, conhecer os direitos é fundamental. Muitas mulheres ainda não sabem que existem leis criadas justamente para protegê-las. A Lei Maria da Penha é um marco no enfrentamento da violência doméstica. A Lei do Feminicídio reconhece o assassinato de mulheres por razões de gênero como crime qualificado. Há também a Lei de Importunação Sexual, a Lei do Minuto Seguinte, Lei Não é Não... Essas leis são fruto de luta e representam instrumentos importantes para romper o ciclo da violência.

Mas nenhuma lei, sozinha, muda uma cultura. Essa transformação precisa envolver a todos. É um sinal positivo ver cada vez mais homens se manifestando nas redes sociais, participando de campanhas, gravando vídeos e dizendo claramente que a violência contra mulheres não pode ser tolerada.

A mudança começa cedo. Meninos precisam aprender desde pequenos a respeitar limites, a lidar com frustrações, a entender que meninas não são propriedade de ninguém. Quando isso falha, o resultado pode ser devastador. O caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro, envolvendo jovens que acreditavam na impunidade, é um exemplo. A prisão dos envolvidos precisa servir como alerta e como lição. Que seja pedagógico. Que deixe claro que esses crimes têm consequência.

As formas de socialização das crianças autistas devem ser respeitadas (Imagem: Monkey Business Images | Shutterstock)
Meninos e meninas. Crédito: Imagem: Monkey Business Images | Shutterstock

O esforço para mudar essa realidade não deve ser apenas uma pauta feminina. É um compromisso social. É responsabilidade das famílias, das escolas, das instituições e também de cada pessoa que se recusa a normalizar o desrespeito.

Há oito anos, o Brasil perdeu Marielle Franco, uma mulher que transformou sua voz em defesa da justiça e da dignidade. Sua trajetória nos lembra que a luta por igualdade e por vidas livres de violência não pode ser silenciada.

Que essa memória nos provoque a agir. Porque não basta lamentar tragédias depois que elas acontecem. A verdadeira mudança começa quando toda a sociedade decide que nenhuma agressão contra mulheres será ignorada, relativizada ou esquecida.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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