O dólar protagonizou nas últimas semanas o cenário econômico brasileiro, rompendo a barreira de R$ 6,20 e reacendendo o debate sobre as consequências da desvalorização do real. Em meio a isso, uma declaração do presidente Lula proferida em julho de 2024 voltou à tona: "O povo mais pobre, o povo mais humilde, quando ele tem um pouquinho de dinheiro, ele não compra dólar; ele compra comida." Essa fala, em sua essência, não captura as complexidades subjacentes que envolvem a alta da moeda americana e suas implicações para o dia a dia dos brasileiros.
O impacto da volatilidade cambial vai muito além dos mercados financeiros. De acordo com um estudo recente da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mais de 10% dos produtos consumidos pelos brasileiros são diretamente importados ou possuem componentes indexados ao dólar. No entanto, o efeito da alta cambial não se limita a esses itens.
Muitos outros produtos, embora produzidos localmente, sofrem reflexos indiretos do aumento do dólar, como é o caso do transporte e do frete, que dependem de combustíveis cotados na moeda americana. Dessa forma, quase a totalidade dos produtos comercializados no país acaba impactada, direta ou indiretamente, pelo câmbio, pressionando ainda mais o custo de vida e corroendo o poder de compra da população.
Desse modo, o comentário do presidente reflete uma realidade incontestável: as prioridades da população mais pobre são, naturalmente, a subsistência e o consumo imediato. Porém, a alta do dólar não pode ser tratada apenas como uma preocupação dos mais abastados ou dos investidores. Ela afeta diretamente o prato de comida, o transporte e o acesso à saúde, elementos fundamentais da dignidade humana.
Mas a escalada do dólar tem uma explicação. Ela reflete, em grande parte, a incerteza fiscal do Brasil. O anúncio de um pacote de corte de gastos governamentais considerado insuficiente para equilibrar as contas públicas gerou desconfiança entre investidores, que temem pelo não cumprimento das metas fiscais.
A saída de capitais estrangeiros e o enfraquecimento do real são respostas previsíveis a esse cenário, intensificados pela perspectiva de um fortalecimento global do dólar, fenômeno associado a fatores externos, como a eleição de Trump nos Estados Unidos.
Embora o Banco Central tenha tentado intervir, utilizando reservas internacionais, a estratégia mostrou-se limitada diante da magnitude das forças de mercado.
Para proteger-se desse ambiente de instabilidade, os brasileiros precisam compreender a importância da diversificação internacional nos investimentos. Segundo o estudo da FGV, alocar pelo menos 16% a 18% dos portfólios em ativos no exterior é crucial para neutralizar o impacto da volatilidade cambial. Para famílias de maior renda, esse percentual deve ser ainda maior, permitindo acesso a mercados mais estáveis e setores inovadores.
Essa estratégia não é elitista, mas pragmática. Assim como o dólar afeta o preço dos alimentos, ele também pode ser um aliado quando incluído nas estratégias de proteção patrimonial. Investir em ativos dolarizados é uma maneira de blindar o poder de compra contra as flutuações da moeda nacional.
De todo modo, a fala do presidente Lula carece de uma análise mais ampla. Não se trata de substituir as prioridades básicas do povo por especulação cambial, mas de criar condições para que o impacto do dólar na economia seja minimizado. Para isso, é essencial fortalecer a credibilidade fiscal, atrair capital estrangeiro e educar a população sobre a importância da diversificação patrimonial.
Em um mundo cada vez mais globalizado, o dólar é um reflexo do que o Brasil é capaz de oferecer em termos de confiança e estabilidade. Enquanto essa confiança estiver em xeque, todos, ricos ou pobres, pagarão o preço. O debate sobre a alta do dólar, portanto, não pode ser reduzido a uma questão de prioridades de consumo, mas deve ser encarado como uma oportunidade para repensar nosso modelo econômico e, acima de tudo, proteger os brasileiros de sua volatilidade.