Autor(a) Convidado(a)
É delegado de Polícia Civil e professor. Mestre em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo com MBA em Gestão e Governança em Segurança Pública pela UNB

De fuzis falsificados a armas 3D: novas tecnologias colocam mais armas em circulação

Casos recentes demonstram que a utilização de plataformas online para disseminar conhecimento sobre a fabricação de armamentos não é um fenômeno isolado, mas uma tática crescente do crime organizado

  • Daniel Belchior É delegado de Polícia Civil e professor. Mestre em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo com MBA em Gestão e Governança em Segurança Pública pela UNB
Publicado em 13/03/2026 às 16h15

A proliferação de armas de fogo no Brasil configura um fenômeno alarmante, impulsionado pela capacidade inovadora do crime organizado, que transcendeu métodos rústicos para adotar processos de fabricação industrial e tecnologias de impressão 3D.

Referido cenário fundamenta-se em evidências técnicas e operacionais recentes, que revelam a sofisticação das redes e organizações criminosas e a urgência de respostas institucionais coordenadas. 

A fabricação ilícita e a falsificação de fuzis ganharam notoriedade com a Operação Lume, da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Em março de 2019, foram apreendidos 117 fuzis incompletos na residência de um amigo de Ronnie Lessa - condenado pelo homicídio da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Os componentes e acessórios apreendidos, indicando a montagem e falsificação dos fuzis, já prenunciavam a transição do crime organizado para uma produção própria de material bélico.

Em solo capixaba, a orientação técnica emitida em 2022 pela Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos da Polícia Civil do Espírito Santo identificou a presença recorrente de fuzis fabricados ilicitamente e falsificados, predominantemente da plataforma AR-15 nos calibres 5,56x45 mm e 7,62x51mm. O estudo apontou que os armamentos eram montados com componentes traficados dos Estados Unidos, ostentando logotipos de fabricantes de armas renomados como Colt e Bushmaster.

A ausência de marcações obrigatórias e a detecção de usinagem artesanal nas armas objeto do estudo confirmaram o Brasil como destino final de peças e acessórios estrangeiros, sinalizando a consolidação de rotas transfronteiriças nacionais e internacionais.

A escalada atingiu um novo patamar em 2025. No Rio de Janeiro, a megaoperação nos Complexos da Penha e do Alemão registrou o recorde de mais de 90 fuzis apreendidos, em sua maioria falsificações.

O volume de fuzis apreendidos e falsificados no Rio de Janeiro reflete o aprimoramento da fabricação nacional, evidenciado pela Operação Forja, deflagrada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, que desarticulou uma avançada planta industrial de fabricação ilícita de armas de fogo em larga escala em território nacional.

O esquema, que migrou de Belo Horizonte (MG) em 2023 para Santa Bárbara d’Oeste (SP) em 2025, operava sob a fachada de uma empresa de peças aeronáuticas com capacidade de produção de 3.500 fuzis por ano. Utilizando componentes importados dos EUA e da China, a organização empregava maquinário de alta precisão (CNC) e impressão 3D para fabricar peças em solo nacional, consolidando um fluxo logístico e de emprego de alta tecnologia para o abastecimento direto de facções do Complexo do Alemão e da Rocinha com armas de fogo.

A evolução, contudo, não se restringe ao meio físico. A Operação Armas.com, deflagrada pela Polícia Civil do Espírito Santo em 2024, revelou como redes digitais são instrumentalizadas para a difusão de conhecimento bélico. A rede desarticulada acumulava mais de 110 milhões de visualizações em canais que comercializavam e ensinavam a fabricação de armas caseiras, servindo de "escola" para armeiros clandestinos em 11 estados brasileiros.

Impressoras 3D eram usadas para fabricar armas e acessórios
Impressoras 3D usadas para fabricar armas e acessórios. Crédito: Divulgação

A Operação Shadowgun, recém-deflagrada, descortina o estágio mais sofisticado dessa metamorfose: a arma deixa de ser um objeto metálico para se tornar um arquivo digital que atravessa fronteiras. A utilização de polímeros de alta resistência desafia os métodos tradicionais de rastreamento, garantindo o anonimato total ao usuário final.

Com atuação em 12 estados, a rede de tráfico e produção de armas de fogo comercializava projetos digitais e manuais técnicos para armas de fogo produzidas em impressoras 3D.

Esses casos demonstram que a utilização de plataformas online para disseminar conhecimento sobre a fabricação de armamentos não é um fenômeno isolado, mas uma tática crescente do crime organizado para expandir o seu domínio. O avanço tecnológico, portanto, acaba por descentralizar a produção de armas de fogo, tornando-a acessível e irrastreável, e agravando ainda mais a letalidade em territórios dominados por facções.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.