A pandemia do novo coronavírus tem nos colocado diante do espelho em muitos aspectos. No tempo em que boa parte de nós passamos em casa, temos tido a oportunidade de refletir eticamente sobre o que nos espera no futuro próximo, observando alguns valores e hábitos se dissolverem no presente, enquanto geramos outras culturas e modos de vida.
O que de fato é prioritário para nós, como cidadãos? Como equalizar situações sociais por tanto tempo negligenciadas? Quais os conhecimentos necessários para uma sociedade que defende a vida? Momentos de crise são, também, tempos em que nos despimos das certezas e admitimos, querendo ou não, que não temos todas as respostas, não controlamos todas as variáveis. As soluções que antes cabiam, hoje nos escapam. Portanto, não há saídas simples.
Nesse sentido, é preciso encarar o difícil debate sobre o ensino remoto. Esse conjunto difuso e controverso de práticas escolares, que têm como meio de veiculação as tecnologias da informação e da comunicação, vem sendo a tônica no atual momento, quando, por força do perigo do contágio, as escolas se encontram fechadas.
Já dizia o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) que a crise da educação brasileira não é uma crise, é um projeto. E, partindo dessa declaração, que virou para nós, educadores, quase um provérbio, um dito popular nas salas de professores Brasil afora, propomos aqui breves reflexões sobre esta forma de ensino.
Implantado por diferentes formatos (videoaulas pela TV ou pela internet, lives com professores, exercícios, reprodução de sequências de slides narrados, postagens de textos e imagens seguidos de questionários a respeito etc..), nas redes públicas municipais, estaduais e federal, bem como nas escolas privadas, em todos os níveis de escolaridade, o ensino remoto tem sido apresentado como a solução possível, no exato momento em que as tecnologias computacionais ganham protagonismo, diante do isolamento social.
Devemos, portanto, lembrar que neste longo percurso de lutas por educação de qualidade em nosso país, fórmulas que ressaltam a importância das técnicas de ensinar e, por conseguinte, sublinham o papel do uso das tecnologias no processo educativo não são novas. Chegaram por aqui juntamente com os “Pioneiros da Educação”, nas elaborações escolanovistas de inícios do século XX, de matriz estadunidense e europeia. Os métodos ativos, as máquinas de ensinar, os questionários e gabaritos, a ênfase no ambiente motivador e nas atividades lúdicas e mais atraentes são ideias e práticas que já circulam pelo Brasil há pelos menos cem anos.
Esse viés liberal e pouco crítico dos processos de exclusão que, de fato, geram as desigualdades sociais - base de ordem autoritária e antidemocrática em que vivemos -, vem sendo recuperado como grande novidade educativa. Contudo, se por um lado podemos enxergar potencial educativo nos processos mediados pela tecnologia – quando estes são, de fato, planejados e adequados à faixa etária e às necessidades educativas dos sujeitos aprendentes, o que não parece ser o caso do ensino remoto, tal como está posto - esse potencial só pode ser evidenciado, dialeticamente, por meio da crítica ao seu uso com pouco critério.
Sabemos que grande é o abismo que separa estudantes que têm acesso a oportunidades educativas e meios tecnológicos de ponta daqueles que enfrentam o atual cenário lutando pela própria sobrevivência física, diante de suas precárias condições de vida. Estamos cientes também de que, por maior boa vontade que os professores tenham em se adaptar ao novo momento, seu trabalho artesanal (sim, educação é trabalho minucioso, artesanal) foi bruscamente impactado pela exigência, por parte dos gestores, de uma série de competências novas, a serem adquiridas e administradas sem o espaço e o tempo devido para sua apropriação. Enfrentam, assim, a pressão do cumprimento de listas de conteúdos, numa lógica produtivista, condenada pelas teorias atualmente aceitas no campo da educação.
Nesse cotidiano de tensão e expectativa, somos instados, de uma hora para outra, a nos adaptarmos, usando nossos equipamentos e recursos privados, não importando as condições em que se encontram, nossos espaços domésticos e nossos conhecimentos muitas vezes limitados em termos de tecnologia, para atender às demandas do sistema, e não às necessidades definidas por um projeto educativo de impacto social, de fato. É hora, portanto, de nos perguntamos: o que é mesmo educar? A quem o ensino remoto atende? Que qualidade de educação produz (ou reproduz)? Qual a sua finalidade? Gera oportunidades educativas ou reitera desigualdades?
Creio que, muito provavelmente, os processos remotos de escolarização conseguirão, por fim, se impor, diante na necessidade de períodos de quarentena, de tempos em tempos. Sim, no modelo global, os lucros são locais, mas os micro-organismos são distributivos e democráticos. Aqui, é importante lembrar que, se hoje nos deparamos com uma cena educacional excludente, aprofundada, em grande medida, pelos modelos remotos adotados, essa desigualdade não foi produzida pelo vírus. Ela permanece como elemento estruturante de nossa sociedade, evidenciado, agora, na triste realidade da peste.
A autora é doutora em Educação , doutoranda em História pela Ufes e membro da diretoria da Associação Nacional de História – Seção Espírito Santo (Anpuh-ES)