No atual contexto de pandemia pela Covid-19, a água, mais uma vez, é nossa grande aliada. A higienização com água e sabão, segundo especialistas da área de saúde, reduz significativamente as chances de infecção e transmissão do vírus. Contudo, a ação simples de lavar as mãos pode e está sendo prejudicada em muitas cidades do Brasil devido à falta de água. Sofrem mais as populações menos favorecidas.
Dados do IBGE, divulgados no início de maio, mostram que 18 milhões de brasileiros não recebem água encanada diariamente. Mais de 6 milhões de domicílios ficam sem água pelo menos uma vez por semana, e outros 3 milhões, várias vezes por semana. Como atender às recomendações de saúde se falta água tratada na torneira dia sim, dia não, semana sim, semana não?
É relevante lembrar que o Brasil possui uma política de recursos hídricos considerada avançada, a qual dispõe que a gestão da água deve ser descentralizada, integrada e participativa. Portanto, temos um exercício de colaboração, cooperação, construção de consensos e solidariedade a fazer.
Conciliar os diferentes usos da água (abastecimento público, diluição de esgotos domésticos e efluentes, uso industrial, irrigação de culturas, lazer, entre outros) é uma tarefa que exige disposição para olhar a própria necessidade e ser empático com os outros interesses. É uma atividade que compete aos usuários de água, aos governos, às entidades sociais e à cada cidadão. A legislação brasileira dá espaço para a real participação social na gestão da água.
Aqui no Espírito Santo essa gestão compartilhada é expressa pelos Comitês de Bacias Hidrográficas e pelos Planos de Recursos Hídricos, elaborados pelo governo do Estado com a participação da sociedade representada pelos comitês. O trabalho é coordenado pela Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh).
A nós, cabe conhecer melhor essa política pública a fim de acelerar sua prática e contribuir para que mais pessoas tenham acesso a esse recurso essencial. A distribuição mais eficiente da água e a conciliação dos seus diferentes usos estão diretamente ligadas a mais saúde, mais qualidade de vida e maior garantia de desenvolvimento social e econômico, porque a água também é insumo fundamental às atividades produtivas.
Reduzir a desigualdade, exercer a cidadania, ser empático e solidário, cooperar, cumprir a lei, respeitar os direitos essenciais das pessoas e cuidar dos recursos naturais... A responsabilidade é de todos e de cada um, em tempos “normais” e em tempos de pandemia.
*A autora é doutora em Recursos Hídricos e gerente de Planejamento e Pesquisa da Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh)