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Anna Luiza Guerzet

Artigo de Opinião

É associada I do Instituto Líderes do Amanhã
Anna Luiza Guerzet

A liberdade de contratar foi cancelada?

Não são só os habitantes naturais das redes sociais, como famosos e influenciadores digitais, que sofrem cancelamento: empresas também são atingidas
Anna Luiza Guerzet
É associada I do Instituto Líderes do Amanhã

Publicado em 18 de Novembro de 2021 às 14:00

Publicado em 

18 nov 2021 às 14:00
Naturalmente, o título deste artigo leva o leitor a pensar no fenômeno do cancelamento, muito comum nas redes sociais. Uma frase mal colocada, algo que deixou de fazer, um comentário aparentemente simples: qualquer atitude singela tem potencial de resultar em cancelamento no universo da internet. O sujeito cancelado recebe críticas severas, comentários ofensivos, perde seguidores, perde parcerias e sua imagem deixa de fazer sentido do ponto de vista comercial, pelo menos por um tempo.
Há ainda casos mais emblemáticos, como o da influenciadora digital que se reuniu com amigos durante períodos mais restritos de quarentena da pandemia de Covid-19 e teve inúmeros contratos de publicidade rescindidos, com prejuízo avaliado pela Forbes em R$ 3 milhões. Há também o caso da cantora que provocou graves abalos psicológicos em participantes do BBB21 e foi eliminada do programa com a maior rejeição da história de um reality show.
Entretanto, não são só os habitantes naturais das redes sociais, como famosos e influenciadores digitais, que sofrem cancelamento: empresas também são atingidas. Recentemente, a Ável, escritório da XP em Porto Alegre, tornou-se alvo de críticas nas redes sociais diante do compartilhamento de uma foto com seus funcionários, na qual só era possível ver brancos, em sua maioria homens.
O caso tomou tamanha proporção que entidades sociais moveram processo judicial em face da Ável e da XP pleiteando indenizações fixadas em R$ 10 milhões diante do cenário trazido na foto: falta de minorias sociais e étnicas no quadro de colaboradores da empresa. Caso haja uma decisão judicial favorável aos pleitos das entidades sociais, será inaugurado um precedente judicial de obrigatoriedade de diversidade dentro do ambiente empresarial.
Nesse sentido, o caso da foto da Ável remonta ao título desse texto sobre cancelamento da liberdade: deveria a empresa ser obrigada a contar com minorias sociais e étnicas no quadro de colaboradores sob pena de sofrer sanções judiciais e administrativas? Perceba: esse questionamento não ignora o cenário que a foto revela. Sem dúvidas, a foto quer dizer muito. O ponto de debate é: obrigar uma empresa a ter diversidade é uma solução para o racismo presente na nossa sociedade? O questionamento é polêmico e não se pretende esgotar todas as vias de debate aqui neste texto. O objetivo é provocar reflexão.
O economista americano Thomas Sowell, em seu livro “Discriminação e disparidades”, aborda a problemática do racismo sob um viés estatístico. Sowell traz um importante cenário sobre o apartheid na África do Sul: o descumprimento de legislações por parte de empresário sul-africanos brancos, os quais contratavam negros em números acima do permitido pelas leis e para cargos em níveis mais altos que aqueles determinados.
De acordo o economista, ainda que fossem racistas, os empresários brancos sul-africanos optavam por não arcar com o custo de deixar de contratar mão de obra qualificada de trabalhadores negros que poderiam tornar suas empresas mais lucrativas. Ao longo da obra, a conclusão a que o autor chega com base em dados é que discriminar alguém por sua cor de pele não é economicamente interessante.
Outra conjuntura relevante de trazer para análise é a do mercado de cosméticos veganos e cruelty free. Há pouco tempo, nem sequer se ouvia falar sobre a problemática de utilização de produtos de origem animal e de realização de testes em animais para cosméticos. Num piscar de olhos, o cenário mudou e hoje o consumidor é consciente de suas escolhas: se puder optar, certamente escolherá um produto que não testa e não utiliza matéria-prima de origem animal.
De acordo com pesquisa realizada pela MarketGlass, o mercado global de cosméticos veganos excederá US$ 21 bilhões até o ano de 2027 e crescerá 5,1% nos próximos sete anos. Essa mudança não foi provocada por imposição legal e administrativa. Inclusive, na contramão das tendências de mercado, alguns países exigem que empresas testem seus produtos em animais antes de vender ao consumidor final. Ainda assim, o mercado só cresce.
O livro de Thomas Sowell nos revela que deixar de contratar pessoas tecnicamente capacitadas traz prejuízos econômicos com os quais nem o racista quer arcar. A observação do mercado de cosméticos veganos nos mostra uma mudança de panorama provocada pela consciência de consumo, mesmo com a legislação jogando contra a mudança de mercado.
Assim, permanece o questionamento: seria a imposição regulatória ou judicial uma boa alternativa para alterar o cenário trazido pela foto da equipe de funcionários da empresa Ápel? O espaço é curto, mas te convido a refletir.
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