Os resultados recentes que apontam a redução de internações evitáveis e de custos ao SUS a partir da atuação dos médicos de família não trazem surpresa para quem acompanha a saúde pública e suplementar no Brasil há décadas. Há pelo menos vinte anos sabemos que a atenção primária à saúde é o caminho mais eficiente, humano e sustentável para cuidar das pessoas. Ainda assim, seguimos insistindo em um modelo caro, reativo e centrado na doença.
A lógica é simples. Sistemas de saúde que investem em acompanhamento contínuo, vínculo médico-paciente e cuidado coordenado conseguem prevenir complicações, evitar hospitalizações desnecessárias e reduzir custos. Quando a porta de entrada funciona, o sistema inteiro se organiza melhor. O problema é que, no Brasil, essa evidência raramente se transforma em política pública consistente ou em estratégia estruturante no setor privado.
Salvo iniciativas pontuais e bem-sucedidas, tanto no SUS quanto na saúde suplementar, a maior parte dos investimentos segue direcionada à atenção terciária. São bilhões aplicados em hospitais, procedimentos de alta complexidade e tecnologias caras, enquanto a atenção primária recebe recursos insuficientes, profissionais sobrecarregados e pouca valorização.
Isso não é apenas uma decisão técnica equivocada. É uma escolha que impacta diretamente a vida das pessoas. Internações evitáveis representam sofrimento, afastamento da família, perda de qualidade de vida e risco aumentado de complicações. Além disso, pressionam financeiramente um sistema que já opera no limite.
Acredito que cuidar começa antes da doença. Entendo que o cuidado integrado, o médico de família como referência, a equipe multiprofissional e o acompanhamento próximo ao longo da vida são fundamentais. E não se trata de reduzir custos como objetivo principal, mas de oferecer um cuidado mais eficiente, resolutivo e humano. A redução de despesas é consequência natural de um modelo bem desenhado.
Persistir em um sistema que privilegia a intervenção tardia é ignorar evidências científicas, experiências bem-sucedidas e, principalmente, as reais necessidades da população. Se quisermos um sistema de saúde sustentável, precisamos inverter prioridades, fortalecer a atenção primária e reconhecer que o cuidado começa no território, no vínculo e na prevenção.
O futuro da saúde não está em leitos e equipamentos de alta tecnologia. Está na capacidade de acompanhar pessoas, entender contextos e agir antes que o problema chegue ao hospital. Isso já sabemos há muito tempo. O desafio é transformar esse conhecimento em ação concreta.
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