Acompanho futebol há muito tempo. Vivi ainda o fim da era Pelé, acompanhei a idolatria construída em torno de Zico, Roberto Dinamite, Romário, Edmundo, Ronaldo, Rivaldo e tantos outros que marcaram gerações do futebol brasileiro.
Acompanhei um fenômeno muito parecido fora do futebol: Ayrton Senna. E talvez tenha sido justamente ali que comecei a entender que idolatria esportiva nunca foi apenas sobre resultado.
Ao longo da minha trajetória trabalhando com comunicação, marketing, jornalismo esportivo e mídia, acompanhei de perto a construção desses personagens. Trabalhei em coberturas, bastidores, vivi ambientes de Copa do Mundo, observei comportamentos de torcidas. E poucos atletas brasileiros produziram um efeito emocional tão forte quanto Neymar.
Isso sempre me chamou atenção porque, olhando os números, ele disputou quatro Copas do Mundo, não venceu nenhuma e atravessou nos últimos anos um ciclo marcado por lesões, afastamentos e polêmicas extracampo.
Hoje atua no clube que o revelou, num cenário regionalizado. Ainda assim, basta surgir uma convocação para que o país inteiro volte a discutir Neymar de forma intensa.
E isso acontece porque idolatria não é racional. Nunca foi.
Lembro do impacto que Neymar causou no início da carreira no Santos. Não era apenas o jogador habilidoso. Era linguagem, irreverência, estética, comportamento, capacidade de gerar conversa. Ele talvez tenha sido o primeiro grande atleta brasileiro totalmente moldado pela lógica da hiperexposição digital.
Isso ajudou a transformar Neymar em algo maior do que um atleta. Ele virou marca emocional. Poucos nomes no esporte brasileiro possuem hoje esse nível de recall. Ele ocupa um espaço permanente no imaginário popular.
Existe também a carência. O futebol brasileiro vive há anos uma dificuldade enorme de produzir ídolos populares de massa. Temos grandes jogadores tecnicamente, mas poucos conseguem criar conexão emocional. Para muita gente, Neymar ainda representa o jogador brasileiro com dimensão global comparável aos grandes nomes históricos do nosso futebol.
Outro aspecto que considero decisivo é a narrativa da redenção. O brasileiro gosta disso. Mesmo criticado, existe sempre uma expectativa coletiva de que Neymar ainda possa decidir, encantar ou protagonizar um último grande momento.
Existe ainda um elemento simbólico forte. Neymar continua associado à ideia clássica do futebol brasileiro: drible, improviso, ousadia, criatividade e espetáculo. Mesmo sem conquistar uma Copa do Mundo, ele desperta uma memória afetiva ligada ao futebol arte.
Do ponto de vista mercadológico, isso tem enorme valor. Neymar movimenta audiência, imprensa, patrocinadores, plataformas digitais e consumo de conteúdo. Sua convocação vira debate nacional.
Talvez por isso o fenômeno Neymar explique menos sobre futebol e mais sobre comportamento humano. A idolatria esportiva é construída pela repetição emocional, presença constante, memória afetiva e capacidade de representar desejos coletivos.
Vi isso acontecer com Senna, Romário, Ronaldo e vejo acontecer com Neymar, mesmo em um contexto completamente diferente.
Porque ídolos, no fim, sobrevivem não apenas pelos títulos que conquistam, mas pela marca emocional que conseguem deixar nas pessoas.