Ainda faltam os intocáveis
Letícia Gonçalves - Repórter de Política de A GAZETA
Difícil crer na tese de que a condenação e a prisão contra o ex-presidente Lula são frutos de um complô com participação do FBI, da CIA, da Rede Globo e sabe-se lá quais outras entidades reais ou imaginárias, como chegou a sugerir o próprio petista. Há também os que garantem que a punição ao ex-presidente é a prova de que, agora, “A Lei é para Todos” – qualquer referência cinematográfica é mera coincidência.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O rigor do Judiciário contra um ex-presidente da República, alguém que poderia julgar-se acima dos demais brasileiros, como se colocam muitas autoridades, mostra, sim, um sinal de avanço institucional. Mas como prová-lo se parar por aí?
A corrupção, e tampouco a impunidade, não acabou graças à prisão de um homem. E muitos dos que comemoram como se assim fosse o fazem mais por fetiche ideológico do que pelo que chamam de patriotismo.
No discurso feito pouco antes da prisão, Lula declamou sua trajetória política, de líder sindical a presidente da República. Ressaltou o que fez pelos pobres. Esqueceu de mencionar o que fez pelos ricos e o que os ricos fizeram por ele. De certa forma, tentou dar um desfecho menos melancólico, e até messiânico, a este período de sua biografia. Conclamou, em tom emotivo e com a excelente oratória que lhe é peculiar, a esquerda à união em um ano em que deve ser barrado da disputa eleitoral pela Lei da Ficha Limpa.
O ocaso do ex-presidente Lula, por si só, no entanto, não é motivo de comemoração. Outras figuras emblemáticas, de diversos espectros políticos e já investigadas, estão abrigadas pelo foro privilegiado ou à espera da queda da prisão após a condenação em segunda instância para se sentirem intocáveis. O futuro do combate à corrupção no país passa por esses dois temas. O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes alertou, em tom crítico: “Se alguém torce pela prisão de A, precisa lembrar que depois vêm B e C”. É pagar para ver.
A desilusão venceu
Leonel Ximenes - Colunista de A GAZETA
A prisão de um líder popular da envergadura de Lula não é motivo de júbilo. Não apenas os petistas mais fiéis lamentam esse desfecho, mas também todos os democratas deste país se perguntam neste momento: por que chegamos a esse ponto?
A nossa jovem democracia, claro, está dando um sinal vigoroso de que as instituições estão funcionando, de forma independente, sem que os fundamentos desse sistema sejam abalados. Ainda que haja aqui e acolá manifestações mais radicais, muitas delas saudosas da ditadura, o fato inequívoco é que o país está vivendo sua rotina normal. Sigamos.
É lamentável que Lula e seu partido, que fora do poder pregavam a austeridade, o respeito à coisa pública e a honestidade tenham sucumbido aos encantos do “sistema” (como a esquerda gosta) e mergulhado na corrupção utilizando como método o assalto ao aparelho de Estado.
Grande parte dos milhões que um dia acreditou que o Partido dos Trabalhadores seria o condutor das reformas estruturais, o agente da mudança, hoje está profundamente decepcionada. Sentem-se enganados, desiludidos, traídos mesmo.
É uma reação natural, mas, ao mesmo tempo, perigosa. Parte desse segmento entende que esse percalço faz parte do jogo democrático e continua apostando nas alternativas democráticas. Há muitas opções, minimizam. Mas uma considerável parcela da sociedade está claramente desiludida e frustrada, sendo permeável a discursos populistas, irresponsáveis e até autoritários.
Os messiânicos e demagogos se aproveitam dessa fragilidade para fazer proselitismo irresponsável e pregar mudanças pela força, desprezando os fundamentos democráticos da nação. Estes têm que ser combatidos vigorosamente.
Estamos vivendo uma tragédia política. Lula e o PT contribuíram decisivamente para isso. A desilusão venceu a esperança. Precisamos reagir.
Precisamos colar os cacos
Eduardo Fachetti - Editor de A GAZETA
Esqueça Lula. Tente tirar os anos de Dilma da sua conta. Abstraia Cunha, Aécio, Temer e seu pedido para “manter isso aí”. Feito isso, o que sobra de nós, enquanto nação politizada? O que resta de genuinamente democrático, se assistimos pacificamente a destruição de nossa capacidade de argumentar, de ouvir, de ponderar?
Quero estar enganado, mas não vejo no horizonte um país renovado, de poeira sacudida. Diante do país fraturado como está, não serão as eleições de outubro o remédio para curar as feridas – no máximo, torná-las suportáveis.
De 2013 para cá, o Brasil rachou, e rachou, inicialmente, por não aceitar pagar mais caro por um serviço público ineficaz (alguém aí ainda se lembra dos R$ 0,20 dos ônibus de São Paulo?). Logo as manifestações tornaram-se um verdadeiro “contra tudo e contra todos” enquanto, em paralelo, a Operação Lava Jato desnudou uma faceta podre da política que o brasileiro conhecia, mas até ali suportara até com certa condescendência. Não deu mais.
Nessa maratona pelo expurgo de todos os males, abrimos a guarda para vozes defensoras de um Brasil retrógrado, que flerta com a perda de direitos. Aquela “pátria-mãe gentil” tornou-se carrancuda, reativa, a tal ponto que, no dia a dia, o simples fato de não se concordar com a ideia de alguém virou razão para apedrejamento.
“Nós contra eles” virou mantra seguido por tantos que, na incapacidade de uma visão do todo, acham que o Brasil será consertado a marretadas. E isso não tem a ver só com Lula preso, com Dilma deposta, com Bolsonaro reverenciado como mito. Tem a ver comigo, com você, com nossos filhos. Tem a ver com como nos reconhecemos. Se quisermos evoluir precisamos, antes de tudo, aceitar o presente. Não dando as costas para os defeitos da nossa jovem democracia, tampouco aceitando que o Brasil é assim porque é, e ponto. É necessário – e urgente – que juntemos os cacos que sobraram. É preciso fazer desses fragmentos de uma sociedade em colapso um novo molde para o que desejamos vir a ser.
As criações de um semideus
Vinícius Valfré - Repórter de Política de A GAZETA
Atribui-se ao ex-senador dos EUA Daniel Patrick Moynihan (1927 - 2003) a frase: “Qualquer um tem direito à própria opinião, mas não aos próprios fatos”. Em tempos de polarização e de guerra de narrativas, o futuro vem no horizonte trazendo consigo nuvens densas sobre o Brasil.
Sabidamente, Lula e PT querem transformar fatos jurídicos em políticos. É o jogo do poder, não o da verdade. Ao menos parte da enorme comoção gerada nesse jogo não se evapora. Pode ser absorvida por segmentos e em seguida despejada nas urnas. Não fechemos os olhos, ele lidera as pesquisas, apesar do bombardeio.
Neste ambiente fértil à transformação de mentiras em verdades fáticas, como a “condenação sem provas” e a “perseguição ao PT”, um pré-candidato de extrema-direita sobressai e o centro se contenta com pré-candidatos enfadonhos. A preço de hoje, seguiremos em apuros. Palavras do historiador José Murilo de Carvalho: “A nossa crise vai se prolongar bastante. Certamente, as eleições sem Lula não vão resolvê-la”.
Nesta altura, apresentar acentuadas contradições não constrange o PT. O partido, por exemplo, ergue o argumento de que é absurda e violenta a prisão após segunda instância e, simultaneamente, a bandeira da defesa dos pobres contra os poderosos.
Ora, mas faz pouca diferença na vida dos miseráveis o novo entendimento do STF. Na dos poderosos, sim. De um jeito ou de outro, pretos e pobres superlotarão os presídios. Bandidos de colarinho branco (corrupção ativa, passiva, peculato, concussão, etc), segundo o Ministério da Justiça, são 0,25% da população carcerária. Para estes, prescrição e impunidade são a regra.
Em tempos sem precedentes, à Lava Jato também cabe o cuidado para que versões não prevaleçam e para que a operação não esmoreça diante dos demais poderosos. Do contrário, prestará grande serviço aos “fatos” do semideus injustiçado.