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Ritual da virada

Ano Novo não é questão de um segundo, mas de tomar atitudes

Passa ano e entra ano e temos mais facilidade de pular ondas do que contornar problemas. É bem melhor sustentar superstição do que acreditar em nós mesmos

Publicado em 02 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

02 jan 2020 às 04:00
Vinicius Figueira

Colunista

Vinicius Figueira Vinicius Figueira
Queima de fogos em Camburi, no Réveillon 2019 Crédito: Reprodução/TV Gazeta

Os fogos pipocam no céu. É ano novo! Aliás, é Ano Novo mesmo? O que podemos esperar de novo? A novidade que acompanha o novo vem sempre carregada de transformações; do contrário, o novo não nasce, ele fica soterrado no passado e nos antigos vícios. Então, a pergunta do que esperar de 2020 pode ser compreendida pela indagação “o que posso transformar para 2020 ser novo”? Aliás atitude de fazer algo novo é minha, e não da naturalidade do tempo, que muda em apenas um segundo.

Sempre fui para as festas de fim de ano me perguntando isso: para que tanta coisa por um um segundo? E sempre saí me questionando: para que tudo isso? Se pararmos e pensarmos, uma mega festa acontece e milhões são gastos em fogos para marcar a transição de um segundo: de 23h59m59s do ano velho, para 0h do ano novo. Mas o povo criou a cultura da transição. É preciso comemorar. É preciso desejar felicidades para a pessoa que amamos e convivemos, mesmo que depois de algumas horas, dias ou meses a gente se arranhe por não o compreendermos como deveria.

Passa ano e entra ano e temos mais facilidade de pular ondas do que contornar problemas; Preferimos guardar caroços de uva, do que traçar novos objetivos, para quiçá, ter mais dinheiro, mais sucesso. Preferimos comer carne de porco, porque fuça pra frente, do que pensar positivo e tocar a vida. Sempre, ou quase sempre, sentimos e criamos necessidade de amuletos e superstições para substituir aquilo que só depende de nós para acontecer. Entra ano e sai ano, e os comportamentos não se inovam e não fazem o novo. É bem melhor sustentar superstição do que acreditar em nós mesmos.

O novo, para ser novo de fato, precisa desinstalar. Desinstalar significa sair, retirar-se das instalações, do conforto, do prazer, do comodismo, do comum, da mesmice. Mais ainda: desinstalar implica numa atitude que desconforta mais que conforta. Mas tudo o que queremos é o dito conforto, mesmo que ele não nos faça tão bem como imaginamos que ele faça. Carlos Drummond de Andrade já dizia: “Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”.

A voz de Drummond se levanta sobre a cultura do conforto e nos convida a um deslocamento. Deveria ser comum no Ano Novo comemorarmos nosso planejamento do novo ano que se inicia, e que vai nos impelir a fazer um movimento diferente do que o do ano que se passou, que vai nos forçar a dar passos em direção a um propósito, ao invés de darmos pulos nas ondas do mar.

Grifo: se você pula ondas movido por uma fé, continue a pular, mas se você pula ondas simplesmente porque está indo na onda do outro que faz isso, saiba que você precisa de uma atitude, do contrário poderá apreciar a passagem de 80 anos e nenhum deles será novo para você, porque em nenhum deles você buscou ser novo.

Vinicius Figueira

Vinicius Figueira Vinicius Figueira

É publicitário. Uma visão mais humanizada dos avanços tecnológicos e das próprias relações sociais tem destaque neste espaço. Escreve às quintas

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