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Opinião

Andréia Lopes, a bombeira de Hartung

O deputado federal Carlos Manato confirma: vai se filiar ao PSL, novo abrigo de Jair Bolsonaro, e passa a presidência estadual do Solidariedade para o deputado federal Jorge Silva, que sai do PHS

Publicado em 14 de Março de 2018 às 22:43

Públicado em 

14 mar 2018 às 22:43
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Crédito: Amarildo
No dia em que uma bomba caiu sobre o governo Paulo Hartung, com mandados de busca cumpridos na Secretaria de Esportes (Sesport), aparelhos apreendidos e um assessor comissionado investigado pela Polícia Federal (PF) por produção e disseminação de notícia falsa com interesses eleitorais, a secretária de Comunicação, Andréia Lopes, apareceu às pressas com seu extintor de incêndio liderando outra operação: a de minimização de danos à imagem do governo e do próprio governador.
Em um fato completamente atípico, a secretária entrou em contato na manhã de ontem com as autoridades da Superintendência da PF no Espírito Santo pedindo permissão para participar da mesma coletiva de imprensa em que o delegado responsável pela operação policial, Vitor Soares, expôs as condutas investigadas. Mais estranho ainda: a PF fez essa concessão, abrindo as portas para a participação da secretária.
Assim, a porta-voz política do governo que abriga o alvo da investigação teve a incomum oportunidade de apresentar, no mesmo ato, as explicações do ente responsável pela nomeação do servidor investigado. Agindo rapidamente, a secretária tentou fazer do limão uma limonada e transformar uma pauta evidentemente negativa em outra com viés positivo (a de que o governo não compactua com essas práticas). “Apoiamos e parabenizamos a ação da polícia. Não concordamos com esse tipo de conduta no governo do Estado.”
Guardadas as devidas proporções, seria o mesmo que o procurador da República Deltan Dallagnol expor seu famoso PowerPoint com as setas apontando para Lula com um porta-voz do PT ao lado e com direito a expor sua versão dos fatos. Mais ou menos como a Corregedoria-Geral do Estado dar uma coletiva de imprensa sobre um servidor do governo investigado por falta administrativa com o advogado dele ao lado, a defender o cliente. É o avesso do avesso do avesso.
Objetivamente, o servidor Evandro Figueiredo, assessor comissionado na Sesport, é investigado como responsável por ter divulgado uma pesquisa de intenção de votos supostamente falsa em uma matéria jornalística igualmente falsa produzida por ele e publicada no site Capixabão.com. Segundo consta na matéria em questão, a pesquisa teria sido encomendada pelo PSD e não registrada no TRE. Se uma pesquisa não registrada é divulgada para o público, isso já configura ilícito. Mas o caso pode ser pior.
Segundo o delegado, não existiu pesquisa alguma (caso esse em que as informações citadas no site teriam sido simplesmente inventadas). Já de acordo com o presidente estadual do PSD, Neucimar Fraga, o partido de fato encomendou uma pesquisa em meados de janeiro, para consumo interno, mas não autorizou ninguém a divulgar os resultados, e o teor do levantamento real não é aquele publicado no Capixabão.com. Muito estranho...
Seja como for, mais do que um exemplo de absoluta falta de noção, estamos diante de algo muito grave: um assessor colocado para trabalhar (ou não) dentro da Sesport, por livre indicação política e nomeado pelo governador, usufrui de passe livre no governo enquanto se dedica a plantar e difundir conteúdo inverídico na internet com fins eleitorais.
A suposta pesquisa apontava Hartung em vantagem na corrida ao governo e Amaro Neto sobrando na corrida ao Senado. Como sublinhou o delegado, trata-se de um caso claríssimo de “publicação tendenciosa”. E que indiretamente beneficiava o chefe do governo, mesmo que não fosse conivente e nem mesmo soubesse da conduta do subordinado. “Não estou julgando quem está na frente, quem está atrás (na suposta pesquisa). Havia uma predisposição, em tese, para influenciar a vontade do eleitor pelo governador”, afirmou Soares.
E a responsabilidade é só do assessor investigado que age como um aloprado lá na ponta? E quanto a quem colocou o aloprado lá, em cargo comissionado de livre nomeação? Cargo esse, aliás, no qual Evandro permanece, até segunda ordem. Enquanto isso, apesar do extintor da secretária, as chamas continuam ardendo.
Fala, secretária
Da superintendente de Comunicação, Andréia Lopes: “Não há nenhuma orientação do governador para esse tipo de ação. Sempre incentivamos esse tipo de investigação e reitero nosso compromisso em combater esse tipo de ação. Também já fomos vítimas desse tipo de prática e eu mesma já denunciei”.
Fake esquecimento?
Logo no início da coletiva, ao fazer as apresentações à imprensa, o delegado Vitor Soares, chefe da operação Voto Livre, perguntou à secretária o nome dela. “É a segunda vez que esqueço seu nome.” Pode ter sido espontâneo. Pode ter sido ele indicando: “Não estou confortável com a presença de um agente do governo”.
Dissociação
O delegado teve o cuidado de ponderar que as investigações não conduzem a nenhuma associação direta entre Paulo Hartung e os responsáveis pela fake news que o beneficiava. Segundo ele, não há nenhum indício de que o governador tivesse conhecimento da atuação do servidor, muito menos que tenha dado consentimento àquela prática.
Feudo político de Amaro
Largamente conhecido por sua atuação nos bastidores, Evandro Figueiredo é politicamente colado a Amaro Neto, de quem se tornou operador. Diga-se de passagem, a Sesport virou feudo político do grupo de Amaro no governo Paulo Hartung. Foi muito simbólico que, no exato momento em que a coletiva de imprensa ocorria na sede da Superintendência da PF, em São Torquato, Amaro estivesse em Brasília, ao lado do secretário de Estado de Esportes, Roberto Carneiro, para assinar ficha de filiação ao PRB, sigla agora presidida por Carneiro no Espírito Santo.
Dá uma espiadinha
Com trânsito livre no Palácio Anchieta, onde vive fazendo política pelos corredores e antessalas, Evandro mostrava páginas da tal “pesquisa do PSD” para quem quisesse ver, no início de fevereiro, dentro da própria sede do governo.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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