Era o ano de 2014. Da janela de casa, o autônomo Rafael Toneto via a cena de abandono: 32 ambulâncias do Samu paradas no pátio do Himaba, em Vila Velha. Ironicamente, quando precisou do serviço, não havia veículo disponível. “É uma falta de respeito com o cidadão”, protestou. Em 2018, quatro anos depois, infelizmente o cenário é o mesmo. Neste momento, mais de 10 ambulâncias estão ao relento, sem uso, em uma oficina em Cariacica, como mostrou a reportagem da TV Gazeta.
Agora, quem engrossa o coro dos indignados é o pedreiro Manoel Leal. “Eu acho estranho essas ambulâncias paradas. Se for do Estado, o que estão fazendo aí?”, questiona, sobre o mais recente caso. Ou seria descaso? A resposta da Secretaria de Estado da Saúde explica, mas não acalenta. Como recebeu novos veículos para renovação de frota, os antigos foram tirados de circulação. A promessa é doá-los para alguns municípios, mas isso depende de uma autorização do Ministério da Saúde. Resumindo: carros que poderiam estar salvando vidas estão estacionados na burocracia estatal.
A situação pune duplamente a população. Além do desperdício de dinheiro público, sabidamente escasso, agrava ainda mais o já deficiente atendimento à saúde dos cidadãos. É ainda mais revoltante lembrar que os atropelos administrativos começaram já na implantação do serviço, tão delicado e importante. Entre 2005 e 2006, 18 ambulâncias do Samu ficaram quase um ano paradas, aguardando papelada e treinamento. O caso de 2014, que relembramos aqui, teve triste desfecho: em fevereiro do ano seguinte, 20 das 32 ambulâncias continuavam paradas e, por isso, 11 tiveram que ser devolvidas ao governo federal.
Em um país que enfrenta graves restrições orçamentárias, com problemas já crônicos em áreas como a saúde, é inadmissível que os parcos recursos sejam consumidos pela má gestão. Esse é o caminho inverso ao que se espera dos bons governantes. As vacas magras não são desculpa para a ineficiência.