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Opinião da GAZETA

Ajuda é um dever moral

Brasil tem problemas, mas não pode negar assistência humanitária aos que se veem na premência de deixar sua terra para sobreviver

Publicado em 08 de Setembro de 2018 às 21:08

Públicado em 

08 set 2018 às 21:08

Colunista

Bandeira da Venezuela Crédito: Reprodução/Flickr
Em busca de melhores condições de vida, a jovem Merlis Martinez, 27 anos, deixou um curso universitário em Engenharia de Sistemas na Venezuela e hoje trabalha em Vitória como empregada doméstica. Aqui, quer voltar a estudar e junta dinheiro para trazer a família. “Minha mãe está comendo com o dinheiro que estou enviando para lá”, afirma.
A emigração mudou a vida da também venezuelana Angela Providência David Cueva. Ela está na capital capixaba, onde decidiu se estabelecer, desde janeiro deste ano. Considera que há mais oportunidades de trabalho. Sobre o país de origem, diz que lá “não tinha comida. Se alguém encontrasse um determinado produto, depois o vendia 50 vezes mais caro. O dinheiro não dava para nada”.
É uma referência à inacreditável inflação venezuelana de 1.000.000% (um milhão por cento) projetada para 2018, motivo do “Madurazo” em vigor, com o corte de cinco zeros na moeda, que passou a se chamar bolívar soberano, e a adoção de novo câmbio, com desvalorização de 96% do dinheiro local frente ao dólar.
Há grande ceticismo sobre a eficácia desse plano do ditador Nicolás Maduro. A voz corrente é de que não eliminará a hiperinflação nem resgatará o país do colapso econômico. A recessão é catastrófica e já está no quinto ano. Oito em cada dez venezuelanos não dispõem de renda para comprar uma cesta básica (com alimentos e produtos de higiene). Nem que tivessem, não conseguiriam. Esses produtos praticamente já não existem. O desabastecimento é dramático e atinge também remédios.
Merlis e Angela, que escolheram o Espírito Santo para morar, integram o grande êxodo de um país destroçado por governos populistas, autoritários e dados a manipulações políticas – infelizmente apoiados pelo Brasil. Desde o ano 2000, cerca de 4 milhões de cidadãos fugiram do inferno construído pelo chavismo.
A Organização das Nações Unidas (ONU) avalia que a crise migratória na Venezuela já está quase no nível de fluxo de refugiados no Mediterrâneo para escapar da miséria. O IBGE estima que pelo menos 30 mil tenham fixado residência no território brasileiro.
É claro que o Brasil tem problemas sociais, políticos e econômicos de sobra. O desemprego é alarmante, e a pobreza está crescendo. Mas essa situação não o exime do dever moral de acolher e prestar assistência humanitária aos que se veem na premência de deixar a sua terra natal para sobreviver.

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