Se existe algo que os brasileiros, tão castigados em tempos recentes pelas desandanças políticas que resvala em tragédia socioeconômica, podem ter orgulho é o agronegócio. Potência mundial na produção de soja, laranja, café e carne, a produção agropecuária brasileira não só tem salvado a economia do país, como demonstra reais possibilidades de crescimento ainda maior do segmento, de tal modo que já se diz que o Brasil será responsável por alimentar o mundo. Em números gerais, o país só perde para os EUA; no entanto, o mercado consumidor interno lá é muito maior do que o brasileiro, assim, grande parte da nossa produção é exportada para diversos países, entre eles a China.
Resultado de pesquisas inovadoras realizadas por órgãos como Embrapa e o capixaba Incaper, a atividade do campo vem aumentando a produtividade por hectare plantado. Com equipamentos e tecnologia cada vez mais eficientes, o aumento da produtividade também implica menor uso de mão de obra no meio rural, trazendo outro tipo de consequência.
Em meados do século XX as cidades brasileiras se viram inchadas graças à fuga do homem do campo. Milhares de pessoas, que estavam em busca de oportunidades, deslocaram-se para aglomerados urbanos despreparados para receber tamanha leva de migrantes. Tratava-se de uma população rural desqualificada, numa época na qual se acreditava que o desenvolvimento econômico estava unicamente pautado pelo setor industrial. Pessoas originárias de uma área rural empobrecida que sonhavam com a (aparente) riqueza da cidade.
Hoje, porém, o campo enriqueceu e é quem comanda a riqueza nacional, ainda que boa parte dela acabe se transferindo e se concentrando nas grandes cidades.
Ocorre que as inovações tecnológicas que incluem os sistemas digitais e remotos, a robotização, entre outros, provocarão perdas de postos de trabalho no ambiente rural, tal como já começou a se dar nas cidades e de modo cada vez mais intenso.
No Espírito Santo, onde boa parte da produção agropecuária está concentrada em pequenas propriedades familiares, o impacto inicial desse fenômeno será menor. Por outro lado, a indústria capixaba que está concentrada nas periferias das grandes áreas urbanas ainda é baseada em commodities, ou seja, produtos de baixo valor agregado, e onde o processo da retração do mercado de trabalho será mais acentuado devido às novas tecnologias que proporcionarão o aumento da produtividade.
Há uma ideia geral, principalmente para os mais jovens, de que a vida no meio rural é tediosa, compensada, de certo modo, pela tranquilidade. As grandes cidades, com sua agitação, correria e, principalmente, violência urbana, seriam, portanto, refratárias àquele tipo de migração de décadas atrás. Contudo, infelizmente, já vemos a violência se espalhando e chegando às áreas rurais.
Trata-se de um enorme desafio: do jovem, seja ele do meio urbano ou rural, em encontrar um lugar para viver e trabalhar num futuro já desenhado desde já.