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Opinião da Gazeta

A troco de quê?

Diferentemente do que pregam Lula e Aécio, relações indecorosas com empresários podem ser indícios de corrupção

Publicado em 28 de Abril de 2018 às 20:47

Públicado em 

28 abr 2018 às 20:47

Colunista

Antagonistas políticos, Lula e Aécio Neves dão as mãos ao compartilhar a linha de argumentação de suas defesas. É o que vem ocorrendo, com ambos empenhados em impor uma definição peculiar de corrupção: a do corrupto desentendido. Nesse caso, a alegação é de que não há a prática ilícita quando o favorecimento não é imposto abertamente. É como se grupos empresariais como a Odebrecht e a J&F fossem apenas benevolentes com seus pagamentos ou “presentes” e não exigissem nenhuma contrapartida de antemão.

No caso de Lula, após decisão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal que retirou de Sérgio Moro trechos da delação da Odebrecht, a defesa do ex-presidente protocolou pedido de “imediata remessa dos autos processuais” à Justiça de São Paulo. A movimentação é para desqualificar os processos que tratam do sítio de Atibaia (SP) e da compra de um prédio do Instituto Lula. Na essência, tentam dissociar essas vantagens indevidas da corrupção praticada na Petrobras, o primeiro motor da Lava Jato. Omitem, assim, os indícios contundentes de que a empreiteira se beneficiou, com esses “mimos”, em diversos contratos da estatal.

Já Aécio, em suas relações indecorosas com Joesley Batista, da J&F, alega não ter cometido crimes, só erros. É a mesma dinâmica de minimizar os favorecimentos, como se não houvesse interesse da outra parte. Uma propina de R$ 2 milhões seria mera camaradagem. Faz vista grossa para a dimensão do encanto que o setor público exerce sobre os empresários. É, sem exageros, abusar de uma inocência que cada um dos brasileiros sabe inexistir no meio político.

As relações político-empresariais escusas descortinadas desde o início da força-tarefa mostram que nem sempre se trata de um “pagou, levou”. É, muitas vezes, um investimento em longo prazo. Há muito mais sutileza na compra de influência do que julgam as aparências. A moralização esperada do país passa pela compreensão de que os danos causados são os mesmos.

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