
Fábio Leite*
Outro dia, li sobre a insatisfação de parte do povo em relação à política nacional, especialmente por estar o Estado sob a chefia de administradores sem nenhum ou pouco prestígio. Esse mesmo Estado, por falta de habilidade, sustenta uma classe que se tornou bastante pesada aos cofres públicos, além de procurar transformar a Justiça em instrumento próprio de defesa.
Nesse contexto, desponta uma grave crise social, existindo, de um lado, grupos públicos e particulares amplamente beneficiados por vantagens desprovidas de justificação racional, e, de outro, uma massa responsável pelo efetivo sustento de uma sociedade desigual e baseada em estamentos, historicamente segmentada sob os critérios do nascimento e da tradição. Válida, ainda nesse campo, é a crítica do envolvimento do Estado com a religião: o que deveria representar um diálogo amplo e multilateral, acaba por virar uma forma de defesa ideológica do poder político.
O Estado, como conhecido, desapareceu, sendo reinaugurado sobre as bases impostas, de baixo para cima, pela parte do povo antes explorada
Por fim - e não menos importante -, mesmo que o Estado, mergulhado em gastos supérfluos absurdos, diga o contrário, levantam-se esses mesmos descontentes contra uma crescente crise econômica, sentida na pele pelos incontáveis desempregados, desassistidos e descrentes de dias melhores. Infelizmente, parece muito distante, se não impossível, a realização, em nível satisfatório, de uma urgente reforma fiscal, além da revisão de toda a estrutura arcaica da administração.
Ao fim da leitura, houve o inédito rompimento com esse quadro, praticamente feudal. O Estado, como conhecido, desapareceu, sendo reinaugurado sobre as bases impostas, de baixo para cima, pela parte do povo antes explorada. Aprovou-se uma nova e revolucionária Constituição, com a profunda reforma dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
Não era sonho. Alguém mais atento pode ter identificado que lia eu sobre a Revolução Francesa, ocorrida há mais de 200 anos, mas é possível que, em algum ponto, me tenha passado despercebida a troca do livro por um jornal desta semana.
Apenas o fim da história não se encaixa. Pelo menos ainda.
*O autor é assessor jurídico do TJES