Uma onda conservadora, antipetista, bolsonarista e policialesca iniciada lá atrás, nos protestos de rua de 2013, escoou para dentro das urnas eletrônicas nas eleições gerais de 2018.
A vitória dessa onda eleitoral, que privilegia valores religiosos e a pauta do combate ao crime, se reflete não só na boa votação de Jair Bolsonaro (PSL) no primeiro turno, mas também no triunfo de muitos candidatos a governador, deputado ou senador vinculados diretamente à imagem e à campanha do candidato à Presidência da República, e/ou ligados às bancadas da bala e da Bíblia e a forças policiais.
Veja-se o novo Congresso, com o PSL de Bolsonaro (até então um nanico político), tendo feito simplesmente a segunda maior bancada na Câmara Federal, com 52 deputados eleitos, além do êxito de um grande número de pastores, militares e policiais. Veja-se a eleição ao governo do Rio de Janeiro, com a surpreendente votação do juiz Witzel (PSC) no primeiro turno, muito creditada por analistas a sua associação e seu apoio declarado a Bolsonaro.
Aqui no Espírito Santo, a onda conservadora/militarista/policialesca também bateu com força no rochedo. Na eleição ao governo do Estado, o deputado federal Carlos Manato (PSL) também surpreendeu e por muito pouco não chegou ao segundo turno em uma campanha baseada tão-somente em sua associação com o nome, o número e algumas bandeiras de Bolsonaro. Muitos eleitores decidiram o voto em cima da hora. Não é achismo. A pesquisa Datafolha divulgada na última quarta-feira verificou que praticamente um em cada cinco eleitores brasileiros deixaram para decidir o voto no último fim de semana – 6% no sábado e incríveis 12% no domingo, dia da votação. Isso na eleição para presidente.
Se foi tão grande o índice de decisões de última hora para presidente – normalmente o voto mais enraizado, que o eleitor define primeiro –, imaginem para os outros cargos. As urnas mostram que, diante da urna, muitos eleitores de Bolsonaro resolveram fazer um “match” (associação) com o número do candidato à Presidência, votando em aliados dele também para outros cargos.
Manato sem dúvida se beneficiou desse fator. Além disso, fiel da Maranata e coautor de projeto de anistia a PMs grevistas no Espírito Santo, o deputado é membro das bancadas da Bíblia e da bala no Congresso – e, como vimos, conservadorismo e discurso pró-repressão são outros componentes importantes dessa onda.
Também na bancada capixaba eleita para o Congresso, essa onda se manifestou. Para o Senado, os capixabas elegeram dois senadores com origens parecidas, em forças de segurança, e cujas plataformas de campanha foram calcadas no combate à impunidade e no enrijecimento da legislação penal no Brasil: o delegado Fabiano Contarato (Rede) e o instrutor de segurança Marcos do Val (PPS).
Na Câmara Federal, seis dos dez eleitos podem tranquilamente ser incluídos na raia de candidatos que surfaram na mesma onda, ou foram empurrados por ela:
Josias da Vitória (PPS) é cabo reformado da PMES. A cantora gospel Lauriete (PR) = Magno Malta (PR) = Jair Bolsonaro. Soraya Manato é caso clássico daquele “match” que já citamos: mulher de Carlos Manato, recebeu os votos que iriam para o marido, em razão do sobrenome e da “campanha casada”. Também da “bancada das esposas”, a reeleita Norma Ayub é presidente estadual do DEM, partido conservador, e mulher de Theodorico Ferraço (DEM), tradicionalíssimo político do interior sulista capixaba. Evair de Melo (PP) é uma variação da onda: a de representantes da bancada ruralista, a qual, como ele, também apoia Bolsonaro.
Amaro Neto
É emblemático que o campeão de votos para a Câmara tenha sido Amaro Neto (PRB). Incluímos Amaro na “onda” não só por ser filiado ao PRB, partido da Igreja Universal do Reino de Deus, mas sobretudo porque a expressiva votação do deputado decorre de sua popularidade como apresentador de programa policialesco de TV, não de seu mandato na Assembleia Legislativa – ao longo do qual teve pouca atuação na área de segurança pública e manteve-se quieto durante quase toda a greve da PMES.
Onda na Assembleia
Na eleição da Assembleia, a onda também respingou. Primeiro, na eleição de pelo menos cinco deputados vinculados às polícias civil e militar. No primeiro caso, temos os delegados Lorenzo Pazolini (PRP) e Danilo Bahiense (PSL) – que chegam para o 1º mandato –, além do reeleito Euclério (DC), policial civil aposentado. No segundo, temos Capitão Assumção (PSL), amigo de Bolsonaro, e Coronel Alexandre Quintino (PSL).
Trio Parada Dura
Além da bancada da farda, chama a atenção a reeleição de alguns deputados tradicionais e/ou conservadores que sobreviveram à onda de renovação, como Ferraço (DEM), o “coronel” Enivaldo dos Anjos (PSD) e José Esmeraldo (MDB), com seu slogan “a lei dé frouxa”. Os oito citados ficaram entre os 16 mais votados.
Do Val e Da Vitória
Interrogação e curiosidade imensas sobre como será a postura de Do Val e Da Vitória nas votações em plenário. Ambos, afinal, foram eleitos pelo PPS, partido de centro-esquerda, originado do Partido Comunista Brasileiro (o de Prestes). Em entrevista a A GAZETA, Do Val disse não se considerar nem de direita nem de esquerda e que o PPS o filiou com a condição de lhe dar autonomia. A ver.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.