Antônio Carlos de Medeiros*
As circunstâncias das campanhas políticas mudaram. Diminuiu o poder do marketing eleitoral. Dado o cenário explosivo do déficit da Previdência estadual e do baixo crescimento da economia, as campanhas para governador do ES vão precisar mirar, ao mesmo tempo, o voto e a futura governabilidade. O candidato vai precisar pedir um mandato, na campanha, para uma reforma da Previdência. É preciso legitimidade para realizar esta reforma.
Céticos e insatisfeitos, os eleitores devem rejeitar platitudes e promessas. É provável que façam as suas escolhas (de votar ou não) com base na verificação da credibilidade e da capacidade de entrega do futuro governador. Assim, o principal ativo político-eleitoral do candidato deverá ser a experiência e a capacidade política de formar uma coalizão de poder para garantia da governabilidade.
O desafio principal é descobrir e trilhar o caminho que possa levar da campanha à aliança de governo e, daí, à coalizão de poder. São dois movimentos que se cruzam
As coligações eleitorais fechadas sob o domínio do cálculo eleitoral não representam, ainda, alianças de governo. Muito menos coalizão de poder. Nesta campanha, não basta pedir voto. Os candidatos terão que tecer redes de apoios que serão convertidos em votos, mas também em alianças. A construção de uma narrativa crível é pressuposto para mobilizar a formação da rede.
O desafio principal é descobrir e trilhar o caminho que possa levar da campanha à aliança de governo e, daí, à coalizão de poder. São dois movimentos que se cruzam. A sociedade que deseja mudanças e entregas. E as elites políticas, que parecem compreender que a saída para problema fiscal requer a tecitura de uma coalizão de poder que tenha legitimidade para mediar conflitos e resistências às mudanças.
Mudanças drásticas, como as da idade mínima para aposentadoria e a mudança dos regimes especiais para professores e policiais – fundamentais para o começo do equilíbrio da previdência estadual. Vai além das fronteiras da estrutura do governo e dos partidos. Envolve as elites políticas. Mas precisa ir mais além. Precisa agregar socialmente. Ter respaldo da sociedade. E articular-se para fora dos limites estaduais. Qual será o arranjo de poder pós-Paulo Hartung? Um novo bloco de poder?
Na prática, estamos falando de uma engenharia sociopolítica (um pacto?) com vistas à inserção do ES na “virada” do ciclo econômico e político nacional. Como o ES vai embarcar neste novo ciclo? É possível fazer. As diferenças políticas não precisam levar à autofagia. Construir uma agenda básica de consenso, com um complexo articulado de forças políticas, econômicas, sociais e culturais - voltado para o desenvolvimento do Estado. O mote é a superação do nó fiscal da Previdência e a preparação do ES para novo ciclo de crescimento - para além da economia do petróleo, que é finita...
*O autor é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science