Desaparecer é diferente de morrer. No primeiro caso, não há o fechamento de um ciclo, ficando em aberto uma situação que consiste na perene espera pelo retorno de uma pessoa. Existem três tipos de desaparecimentos: voluntário, involuntário e o forçado.
O voluntário é caracterizado pela ação deliberada de uma pessoa, o involuntário decorre de desastres naturais e o forçado configura-se pela ação de terceiros e de forma violenta. Os três casos acarretam consequências psicológicas e jurídicas. E deixam marcas.
No Brasil, em 2018, foram registrados cerca de 82 mil desaparecimentos, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O Brasil guarda histórias de desaparecimentos ainda não resolvidas, quando se rememora o último regime ditatorial. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, foram 434 desaparecidos. É a dor de uma porta entreaberta que impede que a vida siga adiante.
A Política Pública Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, por meio da Lei 13.812/2019, instituiu a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas e criou o Cadastro Nacional, potencializando mecanismos para o cruzamento de dados e utilização de inteligência nas buscas, visando amenizar a dor das famílias.
Para além disso, a pronta resposta do Estado deve sempre convergir para o atendimento psicossocial diferenciado, diante da dor da família, que é mitigada pela esperança do encontro e o medo da perda. É um instante em que o chão se abre, e somente quem teve essa experiência compreende a sua contundência.
Casos de desaparecimentos suprimem o Direito de Luto e de encerramento de um ciclo. São chagas abertas no seio das famílias, perpetuadas pela falta de informações sobre o paradeiro do ente querido. A busca pela informação é complexa, considerando que envolve um plexo de variáveis muitas vezes não controladas pelas autoridades que são demandadas para a localização dos desaparecidos.
Juan Gelman, poeta argentino que suportou as marcas de desaparecimentos durante a ditadura em seu país, escreveu com a pena dolorosa de um pai que teve que reconhecer os restos mortais do filho, procurar até seus últimos dias a nora e buscar sua neta que a “memória é uma caixinha que se revira sem solução”.