Vários sinais indicavam que Papai Noel seria generoso para o comércio capixaba. Esta coluna chegou a antecipar isso, mas os resultados superaram até as expectativas mais otimistas.
Dados da Secretaria da Fazenda (somatório das notas fiscais) mostram que o comércio no Espírito Santo movimentou aproximadamente R$ 3,75 bilhões em vendas no mês de dezembro, considerando até o dia 24/12 (véspera de Natal). Esse resultado é 26,73% acima do registrado do mesmo período do ano passado, quando atingiu R$ 2,96 bilhões. Salto muito expressivo, sem dúvida. O seu significado é a melhoria da dinâmica econômica - no caso, associada à sazonalidade natalina. O varejo viveu o melhor Natal desde 2017, quando o Espírito Santo e o Brasil venceram recessão das mais severas.
Mas tem a ressaca do "comprismo". Gastos descomedidos costumam gerar desconforto no bolso do consumidor. Até porque, mais de 85% das compras são feitas a prazo, e comprometem os orçamentos futuros. De acordo com levantamento da Fecomércio-ES, cerca de 82 mil famílias em Vitória (o equivalente a 62,7% do total de clientes) começam 2020 com dívidas nas lojas.
Parcelas pagas pontualmente são fundamentais para o fluxo de caixa das lojas. O problema é a inadimplência. Aproximadamente 40 mil famílias têm pelo menos uma conta ou dívida em atraso no varejo da Capital. E para 17,4% desse universo de consumidores a perspectiva é de não tenham condições de pagar as contas em atraso neste mês. Isso acende um alerta, apesar de o nível de desemprego estar diminuindo mês a mês.
Aliás, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgou ontem um quadro preocupante: o percentual de famílias com dívidas atingiu 65,6% em dezembro, o maior patamar visto em dez anos, ou seja, desde janeiro de 2010. Essa situação decorre de compras feitas por meio de cartão de crédito, cheque especial, cheque pré-datado, crédito consignado, crédito pessoal, carnê de loja e prestação da casa. Nada menos de 79,8% das dívidas estão no cartão de crédito. É o campeão, disparado. Em segundo lugar vêm os carnês (15,6%). Ainda bem que a parcela média da renda comprometida com dívidas não é escandalosa. Gira em torno de 29%.
Nesse contexto, vale mencionar um levantamento feito pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), segundo o qual apenas 11% dos consumidores brasileiros (um em cada dez) têm condições de pagar as despesas sazonais deste período, como IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), IPVA (Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores) e material escolar, com os próprios rendimentos, sem ter de cortar vários outros gastos, ou se endividar.
A mesma pesquisa constatou que 22% dos consumidores não fizeram qualquer planejamento para arcar com essas despesas de início de ano. É muita despreocupação!