Estamos três anos distantes de fevereiro de 2017, momento em que Espírito Santo viveu uma de suas piores experiências de medo e terror. Naquela ocasião, em que a insegurança foi total, durante vários dias muitas pessoas não saíram de casa, o comércio tinha um horário diferenciado, a rotina de escolas e trabalho se modificou, ou seja, o cotidiano de “toque de recolher” vivenciado pelas periferias foi democratizado.
Todos esses sentimentos ainda estão armazenados na memória dos capixabas, gravados como signo de um período que teve drásticas consequências. Mais de 200 pessoas foram assassinadas e contabilizaram-se milhões de prejuízos materiais. Para além disso, aqueles que não tinham a dimensão da realidade dura do trabalho dos policiais militares perceberam homens e mulheres sem condições de trabalho e com salários defasados, que não garantem condições de vida digna, fruto de uma política de austeridade que não tem como princípio a vida humana.
Que enxergue no outro um sujeito de Direitos e não um inimigo. Que reconheça a rua como espaço do bem viver e não uma praça de guerra. Precisamos cuidar dos nossos policiais para que eles cuidem de nós e abandonemos os sobressaltos causados pelo fantasma do fevereiro de 2017.
O movimento (ou greve), de conceito disputado e repercussão internacional, revelou uma tropa que não estava sendo cuidada profissionalmente, com a atividade controlada de forma constitucional. Previamente, precisam ter condições, enquanto sujeitos de Direitos, de serem profissionais da segurança pública, de trabalho e meios adequados de acesso a bens e serviços para si e suas famílias.
A população precisa de uma polícia que tenha uma atuação com viés cidadão e respeito aos Direitos Humanos, no entanto, isso precede uma construção que passa por um processo de formação, condições de trabalho, salários dignos e uma retaguarda de cuidado psicossocial para com os policiais e seus familiares.
Antes de se exigir a coragem irretocável de um policial, é imprescindível que se crie condições para nascer um sentimento de pertencimento à sociedade. É necessário que se priorize a formação humanística de homens e mulheres, que são colocados à disposição da população, para exercício de um serviço nobre e de qualidade, uma segurança pública cidadã.