
Amadeu Wetler*
A crise hídrica foi tema constante nos meios de comunicação: começamos a enfrentá-la há quatro anos, anos difíceis, período incomum. No pior momento, dos 5.570 municípios do país, 1.083 estavam em situação de emergência. No Espírito Santo, essa medida foi tomada em maio de 2016. A água foi insuficiente em 29 captações da Cesan, a agricultura agonizou e, pela primeira vez nos 50 anos da companhia, a escassez hídrica chegou à Região Metropolitana.
A falta de água gera conflitos e administrar uma crise hídrica torna-se uma empreitada nada fácil. Ela perpassa toda a cadeia produtiva na agricultura e indústria e sua escassez gera riscos de desemprego e falta de produtos agrícolas. Envolve necessidades básicas das pessoas e questões ambientais. A prioridade, conforme legislação, é atender seres humanos e animais. Mas, durante a crise, a sociedade sentiu como o equilíbrio é difícil. Como atender a todos?
No Espírito Santo, foi criado um Comitê Hídrico para estudar e propor saídas. Secretarias, agências, Cesan e órgãos de governo se uniram para buscar um equilíbrio. Produtores rurais tiveram bombas de irrigação lacradas, acordos de cooperação comunitária foram feitos, Cesan fez rodízio no abastecimento, indústrias reduziram o consumo. Com tratamento isonômico e muito diálogo, o comitê conseguiu administrar. Um aprendizado coletivo registrado em livro.
As secas são cíclicas e é preciso estar preparado, o que significa melhorar a infraestrutura de captação, armazenamento, distribuição de água e cuidar da natureza. Com este conceito, o Estado iniciou um grande programa de barragens para uso múltiplo e incrementou o Programa Reflorestar. No interior, poços foram abertos e captações alteradas. Na Região Metropolitana, o sistema de abastecimento Reis Magos, antecipado em três anos, melhora a segurança hídrica na parte Norte, e a Barragem dos Imigrantes, no Rio Jucu, já contratada, trará segurança na parte Sul. Outra ação estruturante para atender ao crescimento econômico é o reúso pela indústria de 500 l/s de esgoto tratado, reduzindo cerca de 20% na captação do Rio Santa Maria, cujo estudo foi elaborado. Uma pauta a evoluir.
Assim como a floresta, por meio de suas raízes infiltra a água no subsolo, o verdadeiro reservatório, o tema segurança hídrica deve ser lembrança a ficar enraizada no nosso planejamento e ações, pois como dizem nossos irmãos nordestinos: “A primeira coisa que a chuva lava é a lembrança da seca” e não pode ser assim.
*O autor é presidente da Cesan