As ruas ocupadas em diferentes horários do dia fazem a cidade mais segura e promove uma integração social. Os “olhos que vigiam”, sejam no ir e vir pelas calçadas ou mesmo nas vitrines, lojas e restaurantes com fachadas abertas para as ruas, são o melhor sistema de monitoramento das cidades, já indicava Jane Jacobs, em “Morte e Vida nas Grandes Cidades” (1961).
Mais recentemente, Jan Ghel (2010) lançou o livro “Cidades para Pessoas”, que respalda o ideário de planejar cidades para o convívio pleno de pessoas nos espaços públicos com incentivo ao pedestrianismo e ao uso da bicicleta.
O modelo de cidade que estimula a mistura de usos e o convívio social tão frequente no exterior, citando aqui a emblemática cidade de Copenhagen, vem sendo renegado há anos no Brasil. Entretanto, é importante ressaltar que essa cultura de pensar as cidades para as pessoas retoma de forma gradual nas revisões dos planos diretores, em especial, no plano diretor estratégico de São Paulo (2012), com incentivo ao uso misto, recuos para ampliar calçadas, recentralização para aproveitamento máximo da infraestrutura, e redução de vagas dos edifícios.
O uso misto, que conjuga uso residencial ao comércio e serviços, favorece o fluxo de pedestres e desestimula o uso do carro para pequenos deslocamentos com finalidade de atender necessidades diárias de compras e idas a padarias, mercados e ao pequeno comércio. O PDU de Vitória tenta acompanhar o modelo, mas resistências às mudanças nos setores da sociedade ainda são imensas e é necessário um longo processo para ajustes e adaptações ao cotidiano das grandes cidades.
Em Vitória, os moradores de alguns bairros de renda mais alta perseveram na ideia do isolamento e do uso estritamente residencial na revisão da nova Lei do PDU. A consequência é o deslocamento diário para os demais bairros, aumentando o fluxo de carros e piora na mobilidade. Porém, uma preocupação crescente com a dimensão humana no urbanismo vem ganhando força e reflete uma exigência distinta e forte por melhor qualidade de vida e que irá impactar favoravelmente na saúde dos cidadãos. Os recursos de investimentos na escala humana são menores, e os benefícios enormes, se comparados a outros investimentos sociais.
Avivar a cidade, convidar os cidadãos a caminhar, pedalar e priorizar a permanência nos espaços de moradia combinadas a outras atividades desempenhadas no cotidiano é propiciar o movimento, o encontro, a segurança. Nesse sentido, o desenho urbano e o projeto de arquitetura são fundamentais na implementação deste ideário.
*A autora é doutora em Arquitetura e urbanismo