Por mais que a geopolítica internacional seja complexa e que interesses de alguns poucos tenham forte influência na forma e no conteúdo do processo de crescimento dos países, sempre existem graus de autonomia a serem explorados. As chamadas receitas de estabilidade propostas pelo mercado financeiro e impostas por organismos multilaterais como o FMI e o Banco Mundial podem e devem ser adaptadas ao desenvolvimento que países com a dimensão do Brasil desejam.
Foi assim nas tentativas de industrialização tardia no século XX. Com Vargas no estabelecimento da siderurgia; na criação da Petrobras e do Banco de Desenvolvimento Econômico. Com JK com a operacionalização do Plano de Metas e com a atração de tecnologia e competência produtiva na indústria automobilística, entre outras. Com Geisel no aprofundamento da substituição de importações e diversificação das exportações; no estabelecimento de capacitações tecnológicas na exploração de petróleo e na produção agrícola.
Que o debate esperado para as desejadas eleições deste ano sirva para comparar e contrastar o desenvolvimentismo experimentado em Vargas, JK, Geisel e Lula com os momentos do endeusamento acrítico do mercado
Em todos esses momentos, havia um chamado de cautela pelas forças dominantes às quais o Brasil se alinhava. Em nenhum deles houve quebra de alinhamento; esse apenas deixou de ser automático e total já que os interesses nacionais falavam mais alto do que o que ditavam receitas implementadas pelo FMI e pelo Banco Mundial em nome do sistema financeiro internacional.
Já no início do século XXI, a agenda desenvolvimentista posta em prática pelo governo Lula buscou conciliar objetivos de inclusão social como aqueles de estabelecer um novo protagonismo para o país no cenário mundial. Os objetivos de inclusão social foram buscados dentro dos marcos estabelecidos pela Constituição de 1988.
O novo protagonismo mundial foi feito em consonância com oportunidades surgidas na geopolítica internacional. Por um lado, com a competência tecnológica para explorar gás e petróleo no pré-sal. Por outro, com a determinação de aprofundar vínculos com países da América Latina e da África. Por outro ainda, janelas de oportunidades abertas com a crise de 2007 permitiram a aceleração de acordos que geraram convergências de interesses entre Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul – os Brics.
Que o debate esperado para as desejadas eleições deste ano sirva para comparar e contrastar o desenvolvimentismo experimentado em Vargas, JK, Geisel e Lula com os momentos do endeusamento acrítico do mercado. Endeusamento que em momento algum trouxe progresso ao Brasil. Fracasso repetido desde o golpe de 2016.
*O autor é professor de Economia