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Vitor Vogas

Voltas da política canela-verde

São voltas que a política dá: há 15 anos ninguém imaginaria, mas hoje a paz política de Max está nas mãos de Ivan Carlini

Publicado em 14 de Maio de 2018 às 06:33

Públicado em 

14 mai 2018 às 06:33
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Max Filho e Ivan Carlini: em suas origens políticas, o vereador Ivan Carlini (DEM) era um grande aliado de José Carlos Gratz Crédito: Amarildo
Em suas origens políticas, o vereador Ivan Carlini (DEM), presidente da Câmara de Vila Velha, era um grande aliado de José Carlos Gratz. Quando este se julgava “invencível” e era o todo-poderoso presidente da Assembleia Legislativa, na virada dos anos 1990 para a década seguinte, Ivan já era vereador em Vila Velha, tendo seu eleitorado concentrado nas ruas da Grande Cobilândia, assim como Gratz. E foram exatamente as ruas do popular bairro canela-verde que evidenciaram essa relação política, em um dos primeiros dos muitos problemas que o ex-bicheiro acumularia na Justiça.
No ano eleitoral de 2002, Gratz usou mais de R$ 2 milhões desviados do Departamento de Edificações, Rodovias e Transportes (Dert) para “patrocinar” o asfaltamento, sem licitação, de ruas em Cobilândia, “boa ação” feita, evidentemente, com fins eleitoreiros. Para os moradores, ótimo: a despeito da origem dos recursos, o problema foi solucionado. Para Gratz, melhor ainda: posou como “benfeitor” da comunidade, incrementando o próprio prestígio político; para Ivan, idem: por tabela, também se beneficiou da benfeitoria e aumentou seu capital político. Só tinha um enorme problema: a operação foi feita totalmente à margem da legalidade, e aqueles recursos não poderiam jamais ter sido usados para aquela finalidade. Simples assim.
O caso originou ações contra Gratz na Justiça, tanto de natureza criminal como civil pública (por improbidade administrativa), a partir de denúncias oferecidas pelo Ministério Público Estadual. Ivan também foi denunciado. Pelo mesmo episódio, o TRE cassou o registro de candidatura de Gratz em dezembro de 2002, antes de sua nova posse na Assembleia.
Um dos autores originais da denúncia foi Max Filho, então no primeiro mandato como prefeito de Vila Velha. Em maio de 2008, como testemunha de acusação, ele afirmou em juízo que Gratz o procurara para propor o asfaltamento das ruas. Ele disse “ótimo”, desde que tudo fosse feito dentro da legalidade. Gratz preferiu agir do jeito dele, à revelia do prefeito.
Mas a política é uma senhora matreira e faz das suas com o passar dos anos. No dia 1º de janeiro de 2009, Max passou a faixa de prefeito para seu adversário, Neucimar Fraga. No mesmo dia, Ivan Carlini elegeu-se presidente da Câmara Municipal, cadeira da qual nunca mais se levantou. E hoje de volta à prefeitura, Max claramente depende de Ivan. Só isso explica a posição do prefeito de lavar as mãos ante a iminente reeleição do antigo aliado de Gratz para mais um biênio (o 6º) à frente do Legislativo municipal.
Não há que se falar em aliança. Não há propriamente uma parceria política, como houve entre Ivan e os antecessores de Max, Neucimar e Rodney. Mas há, isto sim, uma relação de interdependência política. À parte os argumentos republicanos relacionados por Max – o respeito à autonomia do Poder Legislativo etc. –, o fato é que todo prefeito, aliás todo chefe de Executivo, costuma valer-se da sua posição, quando pode, mais ou menos discretamente, para influenciar na escolha do chefe do Legislativo. Quando pode.
E este é precisamente o ponto: Max, hoje, não está em condições de fazê-lo. Dos 17 vereadores que saíram das urnas em 2016, só unzinho foi eleito pela coligação do prefeito, e mesmo assim é volátil como uma vara de bambu: Heliosandro Mattos (PR).
Por sua vez, com o poder que acumulou em uma década no cargo, Ivan hoje é quase unanimidade entre seus pares. Se comprasse uma briga agora com Ivan, Max poderia bater de frente não só com o presidente, mas com a maior parte dos edis, o que poderia desencadear uma crise política entre os Poderes. E a última coisa de que Max precisa agora, e nos últimos dois anos de mandato, é de um plenário que lhe seja pouco amigável.
Ao contrário, mais do que nunca – sobretudo após a pré-candidatura frustrada ao governo –, Max precisa realizar um bom 2º tempo de mandato, em 2019-2020. Para isso, não pode se dar ao luxo de jogar vereadores contra ele e de viver em conflito com a Câmara. Manter uma boa relação com esta é fundamental para o êxito da administração. E o fiador dessa estabilidade é o presidente do Legislativo. Dependendo de quem ocupa o posto, pode tanto facilitar a vida do prefeito como torná-la um inferno (perguntem a Audifax Barcelos).
São voltas que a política dá: há 15 anos ninguém imaginaria, mas hoje a paz política de Max está nas mãos de Ivan Carlini. Quem diria...
O previsível
Max pode não estar querendo se arriscar a trocar o certo pelo duvidoso. Ivan Carlini é aquilo ali mesmo. Pode não ser o presidente ideal para o prefeito, mas é o que ele tem para hoje e é com quem ele já sabe lidar. Fornece a Max previsibilidade, sobretudo no que tem de mais previsível: sua predisposição manifesta a sempre apoiar o prefeito, quem quer que seja ele. “Sou governista”, afirma o próprio Ivan, sem pudores nem rubores.
O pacificador
E a verdade é que Ivan tem mesmo assegurado a Max certa paz, na medida do possível. Aqui e ali espocam algumas insatisfações, expressadas, por exemplo, na quantidade absurda de vetos de Max derrubados em plenário. Mas estes normalmente correspondem a projetos de menor importância e de autoria dos próprios vereadores, que querem se ver prestigiados. Nos projetos realmente cruciais mandados pelo Executivo, a Câmara tem votado com Max. Na última segunda-feira, testemunhamos uma intervenção feita por Ivan em defesa do prefeito enquanto conduzia a sessão.
Resumindo
Se com Ivan é mais ou menos, sem ele pode ser muito pior. Vai que o cargo passa a ser ocupado por um presidente problemático para Max. Vai que entra lá um vereador muito mais instável como Heliosandro... A eleição é dia 4 de junho.
Elogios
Por isso, na semana passada, Max não poupou elogios a Ivan. Disse que o presidente tem mostrado “maturidade política”, prestado contas e sido um bom gestor. E que não há informação de mau uso de recursos da Câmara.
Como assim?
Se Max quer dizer desde que ele voltou à prefeitura, em 2017, tudo bem. Mas ainda está fresco na memória o caso do uso de verba de gabinete para pagar banquetes com bombons e casquinhas de siri e encher tanques de combustível sem a menor necessidade, em 2008 e 2009. O processo se arrasta há anos no TCES. No momento, o tribunal aguarda o recebimento de todas as defesas.
CENA POLÍTICA 
O deputado Evair de Melo (PP) anda possesso com o nível do Congresso e a desvalorização dos parlamentares que realmente querem fazer um trabalho sério. Dia desses, perguntamos a ele quais eram as novidades. Só isso. A resposta veio na forma de um textão-desabafo: “A vida não é fácil para quem quer enfrentar o dia a dia. É só pedrada! Rapaz, dá vontade de chorar. Eu te convido! Vamos passar a semana juntos! Sabe da minha refeição hoje? Às 7h da manhã, dois pães com ovo, e uma maçã por volta das 12h!”

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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