Diz a sabedoria popular que se tem jaboti no alto da árvore é porque alguém lá o colocou. A notícia da possível fusão dos ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento Agrário e do Meio Ambiente pode ser vista como estranha. Se a ideia vai realmente se efetivar - diante de tantas idas e vindas de fontes no novo governo -, pode ser duvidoso, mas que alguém pensou na fusão, pensou.
Indiscutível a importância do agronegócio na geração de divisas para a economia brasileira. Indubitável a relevância da agricultura familiar na produção de alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, bem como para a geração de trabalho e renda em todo o território nacional. Acima de qualquer questão, está a centralidade da questão ambiental, seja na preservação de recursos naturais, seja na defesa da qualidade do ar, das águas e do solo dos quais todos dependemos.
São três áreas relevantes para a sociedade, a economia e a forma como o Brasil de posiciona na geopolítica internacional. Ainda que complementares entre si, agronegócio, agricultura familiar e meio ambiente têm especificidades que precisam ser representadas em condições semelhantes no jogo de poder em nível ministerial.
Colocar as três áreas sob uma única coordenação gerará distorções na representação dessas especificidades. Se a pasta for ocupada por quem tem compromissos maiores com o agronegócio - cujas práticas até o presente têm sido objeto de questionamentos por parte de ambientalistas, pequenos agricultores, nativos e quilombolas -, a necessária atenção com o meio ambiente e com a agricultura familiar será diminuída.
Raciocínio semelhante poderia ser feito no caso da escolha como titular do ministério for uma pessoa mais comprometida com as áreas ambientais e do desenvolvimento agrário. A própria representação brasileira em fóruns internacionais será prejudicada. Prejuízo maior na medida em que o Brasil há muito é visto como importante agente na produção de excedentes exportáveis de alimentos, bem como em práticas alternativas de produção agrícola a partir de pequenas unidades. E cada vez mais cresce o papel do país em discussões como mudanças climáticas e sustentabilidade ambiental.
Que desçam com o jaboti e que a estrutura ministerial mantenha a representatividade das três áreas. Que ocupantes das três pastas saibam defender as especificidades de cada segmento levando em conta as possíveis e necessárias suplementaridades entre elas. Entre elas, a produção de alimentos sem veneno e a de todos os bens e serviços ambientalmente sustentáveis.