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Arlindo Villaschi

Um país repleto de desencantados

Desencantados são aqueles que nasceram na primeira metade do século 20 até os que chegaram quando as tecnologias da informação davam os primeiros sinais

Publicado em 22 de Junho de 2018 às 23:16

Públicado em 

22 jun 2018 às 23:16
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Em tempos de Copa do Mundo, com baixo nível de animação, vale refletir sobre as razões para a que muitos se sintam desencantados no Brasil. Desencantados com onde chegamos enquanto sociedade.
Os desencantados compõem uma vasta faixa etária, indo daqueles que nasceram ainda na primeira metade do século 20 até aqueles que chegaram quando as tecnologias da informação e comunicações davam sinas de que constituíam o embrião de um novo paradigma. Paradigma que traria novas formas e novos conteúdos na captação, processamento, distribuição e recepção de informações em seus mais diversos meios.
Desencantamentos se somam porque aspirações registradas na Constituição de 1988 vêm sendo sistematicamente frustradas a partir do golpe de 2016
Os mais antigos dentre os desencantados viveram transformações profundas na formação socioeconômica brasileira. De uma sociedade majoritariamente agrária rural, o Brasil rapidamente transformou-se em uma estrutura industrial urbana com todas as complexidades possíveis da rápida transformação. Complexidades em função de vontades de ver o país tornar reais suas possibilidades de crescimento; complexidade pela aspiração de se constituir uma sociedade democrática.
Possibilidades de crescimento que oscilaram entre ufanismos e bravatas – como as dos tempos do regime militar – e frustrações – como as dos períodos de estagnação e hiperinflação. Aspiração à democracia que variou dos tempos de repressão a direitos individuais, entre 1964 e 1985 a aqueles em que foi construída a Constituição de 1988. Constituição cidadã porque se colocava textualmente a favor da inclusão social e do desenvolvimento soberano.
Os mais recentes entre os desencantados vislumbraram possibilidades de ascensão social através tanto do sistema de educação formal – principalmente daqueles que compõem a classe média – quanto do que se apresentava como desdobramentos a partir das novas fontes de conhecimento. Novas fontes com múltiplas oportunidades com a expansão do acesso à internet e tudo dela derivável.
Desencantamentos se somam porque aspirações registradas na Constituição de 1988 vêm sendo sistematicamente frustradas a partir do golpe de 2016. Frustração com perda de direitos sociais e com possibilidades de crescimento econômico. Direitos e possibilidades preteridas para atendimento à financeirização mundializada.
Desencantamentos se ampliam porque nem acesso à educação formal e nem possibilidades de novas fontes de conhecimento garantem acesso a postos de trabalho com qualidade e boa remuneração.
Que desencantamentos acumulados abram espaços para novas vontades socialmente tecidas.
*O autor é professor de Economia
 

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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