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Vitor Vogas

Um ministério notavelmente fraco

Temer quebrou a sua promessa e, em vez de "notáveis", sua equipe é formada cada vez mais por "notórios" praticantes do fisiologismo que impera em Brasília

Publicado em 07 de Janeiro de 2018 às 21:36

Públicado em 

07 jan 2018 às 21:36
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Praça Oito - 08/01/2018 Crédito: Amarildo
A promessa de formar um ministério de “notáveis” com que Temer chegou ao Palácio do Planalto não foi além de uma promessa. Na verdade, durou bem pouco tempo. Já nos dias que se seguiram ao assentamento dele no gabinete antes pertencente a Dilma (PT), em maio de 2016, o peemedebista tratou de quebrá-la, formando uma equipe não de “notáveis”, mas de “notórios” praticantes do fisiologismo que impera em Brasília.
Na semana passada, o que já vinha mal desde o início conseguiu piorar ainda mais, com uma sucessão de episódios que reafirmam os critérios que têm predominado na seleção dos “notáveis” do Michel: em menos de dez dias, nós brasileiros mais uma vez assistimos, entre perplexos e indignados, a Sarney (sempre ele) usar sua influência velada de cacique-mor do PMDB para barrar a nomeação de um adversário tribal no Maranhão, Pedro Fernandes (PTB), para o Ministério do Trabalho.
Vimos também o PTB indicar e Temer referendar o nome da deputada federal Cristiane Brasil (RJ) para ocupar o Ministério do Trabalho, no vácuo deixado pelo homem vetado por Sarney, trazendo assim de volta às manchetes e ao centro da política nacional o pai de Cristiane, Roberto Jefferson (PTB).
No mesmo dia, vimos, ainda, um ministro de Estado (o da Indústria, Marcos Pereira), um dos vários investigados na Lava Jato, renunciar para se dedicar a “questões pessoais e partidárias”. Certo. Presidente nacional do PRB, um dos partidos que se destacam no bazar de Brasília, Pereira, pastor e empresário, é acusado pelo homem-bomba Joesley Batista de ter levado R$ 6 milhões em propina para si mesmo e para o partido em troca da liberação de um empréstimo na Caixa Econômica Federal.
Os episódios acima revelam como certos personagens controversos nunca deixam de ter influência nos rumos políticos do país, enquanto outros que estiveram no limbo nunca se afastaram totalmente do poder e possuem resiliência política que lhes permite recuperar a influência perdida em algum ponto do percurso.
Mumm-Ha da política brasileira (tem 87 anos), Sarney preserva sua influência, como ficou demonstrado cabalmente no episódio citado acima, mesmo sem sair do lugar. É o maior especialista brasileiro na arte de “jogar parado”, como bem definiu Paulo Cesar Pereira em análise publicada em “O Globo” na última quarta-feira. Ninguém, de Lula a Temer, ousa contrariar os interesses do ex-presidente da República, imortal (como Mumm-Ha) da Academia Brasileira de Letras e também da política brasileira.
Se Sarney é o Mumm-Ha tupiniquim, Jefferson é o cara que volta do mundo dos mortos. Cúmplice do mensalão, delator e réu confesso do esquema, tornou-se há pouco mais de dez anos um símbolo da corrupção, dos acordos firmados em bases fisiológicas e desonestas entre o governo do PT e os partidos aliados no Congresso. Cumpriu 14 meses de prisão, bateu no fundo do poço e agora volta à ribalta através da filha, provando o prestígio adquirido junto ao governo Temer.
Nada de novo, infelizmente.
O retrato da equipe de Temer sempre foi e continua sendo um retrato do fisiologismo político que grassa no país: a velha troca de apoio por prestígio e espaço na máquina. Logo, um retrato da política brasileira, dominada por práticas erradas que começam no andar de cima.
Aí a gente olha para a cadeira do novo ministro da Secretaria de Governo de Temer, responsável pela articulação política com o Congresso, e depara com quem? Carlos Marun (PMDB-MS), o cão de guarda de Cunha e em seguida do próprio Temer na Câmara dos Deputados. Não dá para ter esperança.
A face do governo
A composição do ministério de Temer traduz bem o quanto o seu governo já nasceu e até hoje continua voltado para o Congresso e não para a sociedade civil – ignorando portanto o Brasil real, fora do “fantástico universo da fantasia” que é a nossa capital federal. O ministério de Temer é, assim, uma soma de caras fisiológicas, que se juntam para formar um mosaico cuja imagem nos revela uma face ainda mais fisiológica (seguindo a ideia de que o todo é maior do que a soma das partes).
Centrão sobrevivente
Na verdade, o critério predominante na escolha dos nomes do ministério de Temer sempre foi e continua sendo a “necessidade” de honrar acordos nada republicanos e prestigiar partidos aliados que compõem a sua base no Congresso – destacadamente aqueles de pequeno para médio porte que compõem o “centrão”, os mesmos que estiveram com Lula e Dilma e depois, quando pressentiram o naufrágio, abandonaram o navio petista e pularam para a barca pirata dirigida por Eduardo Cunha, depois Temer.
Sarney sobrevivente
Querem mais indicativos da influência mantida por Sarney na República? 1. A participação dele em conversas grampeadas pelo ex-presidente da Transpetro e divulgadas em maio de 2016, mês em que Temer chegou ao Palácio do Planalto. Na conversa, Sarney diz a Machado que Dilma tratou diretamente sobre pagamento da Odebrecht para o marqueteiro João Santana; 2. O peso atribuído a Sarney na indicação do atual chefe da Polícia Federal, Fernando Segóvia; 3. O fato de Sarney Filho (PV-MA) comandar a pasta do Meio Ambiente no governo Temer.
O mais esperto
Jefferson começou o governo Lula como aliado do PT na Câmara e acabou como desafeto. Já Sarney começou como adversário e terminou como aliado preferencial do petista no Senado. O mais esperto?
Cena Política
O leitor mais jovem pode talvez não ter entendido a menção a um certo Mumm-Ra, no texto principal da coluna, em referência a José Sarney. Trata-se do vilão do desenho animado “ThunderCats”, muito popular entre a garotada brasileira nos anos 1990. Era uma mistura maluca de morto-vivo com feiticeiro. Por coincidência, o desenho foi lançado em 1985, ano em que o Mumm-Ra brasileiro chegou à Presidência.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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